ELIAS CANETTI

 

APRENDENDO COM ELIAS CANETTI

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

          Relendo Elias Canetti, descubro que estou no caminho certo, se tenho interesse em ser um escritor universal, o que é muita pretensão de minha parte.

           Toda família tem a sua história. E é interessante como Canetti descreve de forma caricatural – se estou correto - os avós, os pais, o irmão, os tios, os amigos - todos com suas personalidades e seus toques  

            Em A língua absolvida, Canetti nos impressiona pela  capacidade de descrever pessoalmente os que com ele dividiam a existência, mostrando a universalidade do comportamento do ser humano – e o respeito pela diversidade do outro.

            Minha família não veio da Turquia. Não nasci na Bulgária. Não passei pela Áustria, pela Inglaterra e pela Suíça. Mas também trago comigo lembranças de familiares, que me contavam histórias de nossos antepassados, e de amigos. E isto me dará um status de um ser absolutamente normal, ainda que alguns insistam em dizer que o memorialista viva do passado.

              Faz alguns dias, a programação de um canal de televisão nos ofertava uma ópera de Bach, com uma orquestra e um cantor germânicos; ele cantando em alemão encantador. Foi então que me lembrei de uma família alemã, que morava perto de minha casa, em Piedade. Karl, Ingboard e o filho Olaff (Olavo) vieram para o Brasil no início da década de 1950. O Sr. Karl Mielke era taxidermista e veio de Bonn, Alemanha, para trabalhar no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Trouxe esposa e o filho – com 9 anos. Ali, trabalhou durante muitos anos, também ensinando taxidermia aos mais jovens.

               Em minha crônica sobre o incêndio no Museu Nacional, em 2018, falo mais detalhadamente sobre o Sr. Karl.

                Olaff tornou-se amigo de Nirton, meu irmão mais velho. Eram como irmãos. Gostavam de borboletas (lepidóptera) e estudaram Biologia, tornando-se professores da matéria. Na verdade, Olaff era considerado por nós como um 4º irmão, o irmão alemão. Quando o sr. Karl e a sra. Ingboard foram à Alemanha, para rever a família, Olaff ficou sob os cuidados de minha mãe. Éramos tão amigos, que Nirton e Dinah, minha mãe, foram padrinhos de casamento de Olaff e Eliana Costa. Foi o primeiro casamento do Brasil  entre um protestante e uma católica.

                  Pois bem, muitas vezes vi, do jardim de minha casa, ou da janela, o Sr. Karl e a Sra. Ingboard debruçados na varanda do apartamento, olhando a rua, enquanto o alto som de Bach vinha da vitrola que ficava na sala. Creio que o casal, naquele momento, lembrava-se, saudoso, da Alemanha natal agora tão distante.

                   Nossa rua não era calçada. Duas valas corriam do lado direito e do esquerdo da referida via. E, quando chovia, toda ela ficava intransitável, uma lagoa de lama. Nos dias de sol, as borboletas voavam sobre as flores da rua e dos jardins das casas, o que deixa os dois meninos maravilhados.

                Olaff me apelidou de Tarrotti; chamava-me assim porque, quando ficava irritado, xingava todo mundo desta maneira. Mas, se me perguntarem o que significa esta palavra, não saberia responder.

                      Minhas lembranças vão um pouco mais além:

                      Minha mãe nos pediu, certa vez, que nós quatro, Nirton, Nirson, Olaff  e eu, fôssemos à mercearia de D. Maria, uma comerciante portuguesa, na Rua Paraná, para comprar algumas verduras para o almoço. Eu devia ter uns 4 anos. Chegando lá, distraí-me com um gato, enquanto os três faziam as compras. Terminada a compra, os três saíram e me esqueceram na mercearia. E  voltaram sem mim. Vendo que eu não estava entre eles, minha mãe, indignada, falou aos três: “- Não acredito que vocês esqueceram o Nelsinho na mercearia!”  Dinah largou tudo e foi até o estabelecimento de D. Maria,  que já vinha comigo, me carregando por uma das mãos.

                       Enfim, algumas lembranças de minha infância, da minha família e de amigos. Outras lembranças virão.

                        Achei interessante reler Elias Canetti, grande  romancista e ensaísta de nacionalidade búlgara e inglesa, que escrevia em língua alemã. Nasceu a 25 de julho de 1905, na cidade de Ruse [Bulgária], e faleceu a  14 de agosto de 1994, em Zurique, Suíça. Em 1981, Canetti foi galhardeado com o Prêmio Nobel de Literatura. Ele me fez viajar no tempo e escrever esses fragmentos que, vez por outra, povoam a minha mente.

                        A literatura é uma arte interessante, apaixonante. Abre caminhos. Abre possibilidades. “Abre a cortina do passado”. Pode descortinar o futuro. Pode nos tornar mais humanistas e universais. Aprendemos sempre com os grandes escritores que nos fazem ler o outro com atenção e respeito, lendo, assim, a sua alma. Respeitar o outro deveria ser a nossa meta, para vivermos num mundo mais sadio. Dizem, até, que a literatura nos liberta e nos humaniza.

                          Talvez não encontremos semelhanças entre a família de Canetti e a nossa; entre a sua família e a minha. Mas, certamente, nos lembramos carinhosamente de todos aqueles que nos fizeram ou nos fazem companhia neste Planeta Terra.

                           Aprenda, então, com Elias Canetti.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O PROFESSOR E O POETA

SIMBOLISMO E PARNASIANISMO

O PROFESSOR E O POETA II