LÍNGUA PORTUGUESA
A LÍNGUA DE
CAMÕES E SEUS FILHOS, POETAS
Nelson
Marzullo Tangerini
Caetano
Veloso, em sua música “Língua”, na qual divide o vocal com a sambista Elza Soares,
deixou bem claro que gosta de roçar a sua língua, tropicalista, à língua
clássica de Luís de Camões, esse poeta máximo que, esteja onde estiver – e talvez esteja ao lado dos deuses e acompanhado
das tágides -, ilumina todos os escritores e poetas da Lusofonia, que produzem
incessantemente – e com amor à arte - seus textos literários perfeitamente
trabalhados.
O
primeiro e grande poeta da lusofonia, Luís Vaz de Camões, não está tão distante
assim de nós, que escrevemos em português - sejam românticos (Casimiro de Abreu
homenageou-o em “Camões e o Jau”),
parnasianos (que se inspiram nos Clássicos, no Classicismo e no Neoclassicismo,
também chamado de Arcadismo) ou Modernistas, como foi o caso de Fernando
Pessoa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, autor do belo poema
“História, coração, linguagem”, do livro “A paixão medida”, entre tantos outros
nomes consagrados de nossa literatura.
Sinto sua
presença e sua mão amiga sobre a minha, quando a inspiração se faz presente em
minha alma. E deixo também que sua língua roce à minha, pois “além das palavras
é um além-mar, não é um além-túmulo”.
Porque a língua portuguesa se renova e se renovará de tempos em tempos, aumentando
seu léxico, com a promessa viva de que jamais deixará de existir.
Em 2002,
quando estive no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, visitei o leito fictício de
Camões – fictício porque seu corpo nunca foi encontrado, uma vez que fora
enterrado em cova rasa num cemitério popular
da cidade, junto a pobres mortais que perderam suas vidas, como o poeta -
ceifados por uma grande pandemia que matou muitos portugueses. Conta a lenda
que historiadores tentaram reparar um erro cometido pelo império português; e tentaram encontrar e identificar os ossos do
poeta de “Os Lusíadas” (obra épica) e “Sonetos” (obra lírica), entre tantos
outros ossos de homens, mulheres e crianças de menos fama. Enfim, em vala
comum, com “Todo mundo junto e misturado”, a identificação tornar-se-ia muito
difícil e não chegaria a termo.
Pus, portanto, a minha mão direita sobre sua
campa, de mármore branco e trabalhado, apesar de vazia e fria, na esperança de
conseguir do poeta maior uma licença para escrever em português. E é nesse
momento que Camões depositou, creio, uma simples centelha de sua grande luz
sobre o meu ser – tão apagado.
Aqui,
recorro a Olavo Bilac, definindo a língua, mas sem perder de vista o poeta, e a
Manuel Bandeira (ainda parnasiano) para definir o grande vate lusitano:
De Bilac:
“LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela.
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idiona,
Em que da voz materna ouvi: ‘Meu filho!’
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”
De Bandeira:
“A CAMÕES
Quando nalma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados”.
Depois
de ficar cego da vista direita em luta contra os mouros e perder sua amante Dinamene
em naufrágio, nas proximidades da foz do Rio Mekong, ainda teve o poeta de
viver miseravelmente com uma pensão irrisória concedida pelo Império Português
por serviços prestados à Coroa. Enfim, morreu pobre e esquecido, até se tornar,
tempos depois, num herói maior da lusofonia.
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