LUIZ DE GONZAGA
LUIZ DE GONZAGA E A RODA DO PARIS
Nelson Marzullo Tangerini
A “Roda do Café Paris” é,
sem sombra de dúvida, o maior movimento literário de toda a história de
Niterói. Merecia melhor tratamento por parte dos intelectuais ligados à cultura
desta cidade.
Nem toda produção daquela
rapaziada está perdida. Muita coisa ainda circula na mão de colecionadores –
entre eles, Mônaco e eu. Este material devia ser resgatado, ir para uma
entidade séria, talvez a UFF, e tornar-se livro. Levar está história de Niterói
para as escolas e universidades e montar uma exposição sobre o Café Paris se
faz necessário.
Entre os poetas da “Roda”
não havia competição. Havia, sim, uma fraternal democracia entre eles. Apesar
de fazerem sátiras, uns dos outros, como
veremos em futuras crônicas, todos se respeitavam e admiravam o talento dos
amigos.
Há anos venho tentando
publicar uma poesia inédita de Luiz de Gonzaga dedicada a meu pai, Nestor
Tambourindeguy Tangerini.
O referido texto,
manuscrito, influenciado pela escola simbolista, provavelmente foi produzido
numa mesa do Café Paris:
Vejamos:
“A
UM SONHADOR
a Nestor Tangerini
E
ao fim de tanta luta acerba e vã,
olhas
a longa senda percorrida:
longe!
os rosais dolentes da manhã
e
os evangelhos míticos da vida...
A
poeira enluta as curvas dos caminhos,
onde
vinhas, contente da viagem,
vendo
as moitas curvadas à passagem
e
repletas as árvores de ninhos.
Tinhas
os olhos cheios desse sonho:
uma
alma terna, amante e delicada,
que
despontasse como um sol risonho
em
uma volta súbita da estrada.
Vinhas
colhendo as flores mais formosas
e
amando as mais esplêndidas mulheres:
todas
tiveste – lindas como as rosas
e
desfolhadas como os malmequeres:
Mal
sentes hoje o coração inquieto,
ralado
pelos longos azedumes,
-
cheias as mãos de flores sem perfumes,
-
farta a carne de corpos sem afeto.
Longe!
os rosais dolentes da manhã
e
os evangelhos míticos da vida!
distante!
a longa senda percorrida,
onde
arrastaste a tua fé pagã...
E
enquanto cais, exausto pelas dores,
voltas
o olhar e vês, pelos caminhos,
as
velhas ramas dando novas flores
e
as mesmas moitas cheias de outros ninhos...
Luiz de Gonzaga
Niterói, 4/24.”
Em croniqueta publicada,
talvez, no jornal O Prélio, no dia 13 de abril de 1926, João da Ponte
[pseudônimo de Nestor Tangerini] retrata, com refinado humor, uma momento de
descontração entre os rapazes do Café Paris, quando estes comentavam sobre a
passagem de um ilusionista pela antiga capital fluminense.
O cronista retribui a poesia
do amigo, fazendo o poeta Luiz de Gonzaga, o destaque da crônica:
“Quando aqui apareceu o
célebre e inesquecível professor Aronaick; porque se não cansassem os jornais
de o seu aparecimento comentar divulgando-o como sendo uma das maravilhas do
Século XX, não houve, em toda Niterói, gato, cachorro, criança, homem e mulher
que assistir não fosse aos belíssimos trabalhos desse moço, por meio de cujo
assombroso dom havia já conquistado o título de última palavra em
prestidigitação.
Não há, nem pode haver, quem
disto não se lembre.
Foi referindo-se ao hábil e
incomparável professor que, ontem, numa roda, alguém, entusiasmado exclamou.
- Aquele homem era um
verdadeiro assombro! Vi-o transformar, instantaneamente, uma prata de 2 mil
réis em uma rosa!
- Isso não é vantagem!....
respondeu o poeta Luiz de Gonzaga.
- Minha mulher, em menos de
um segundo, transforma, brincando, uma nota de cem mil réis em um chapéu”.
A referida crônica,
recortada por minha avó, Domingas Tambourindeguy Tangerini, chegou até mim com
data de publicação, mas sem o nome do jornal. Ainda assim, é um retrato da
Niterói dos anos 1920.
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