MULHERES FLUMINENSES
MULHERES
FLUMINENSES
Nelson
Marzullo Tangerini
Arrumando
os livros de minha humilde biblioteca, eis que encontro a “Antologia de Poetas
Fluminenses”, de Rubens Falcão, publicada, em 1968, pela Gráfica Record
Editora.
Folheio-a, para desparecer dos problemas diários, e descubro a sonetista
carioca Adélia Correa, irmã, quem diria!, do poeta romântico Luís Guimarães
Jr., autor de “Visita a casa paterna”, dedicado a sua irmã, Isabel, soneto que,
muitas vezes era recitado, em minha casa, por meu tio, o também poeta Maurício
Marzullo:
“Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo:
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos,—olhou-me, grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.
Era esta a sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade”.
Escrito
no Rio de Janeiro, em 1876, o soneto é ainda lembrado em recitais de poesias
por todo o Brasil.
Seguindo
informações de Rubens Falcão, Adélia Canôngia de Medeiros Correia, nasceu na
Cidade do Rio de Janeiro a 7 de outubro de 1881. Ali viveria pouco tempo, pois
mudar-se-ia, ainda menina para a Cidade de Niterói, ex capital fluminense, onde,
mais tarde, viria a se casar com o desembargador Aniceto de Medeiros Correa,
que também tinha sensibilidade para as letras.
É
difícil escolher qual soneto de Adélia seria o mais bonito, e onde ela
derramaria todo o seu talento. Trago-vos, portanto, “Quimera”, embalado pelo
Romantismo, que já vinha, aos poucos, dando sinais de esgotamento e abandonando
o idealismo, do qual se impregnara, no início do século 19:
“Minha vida é um batel, que mansamente
Navega sobre as ondas espumosas
Dum mar que me parece, puramente,
Um turbilhão de nuvens caprichosas.
Essas ondas são pétalas de rosas
Soltas por tuas mãos em dia ardente,
Ou em noites de lua as mais formosas
Sobre a estrada onde marcho como crente.
É o leme que certo sempre o guia
A ilha da Esperança, noite e dia;
É teu amor acrisolado e puro.
Mas, se acaso este leme se partir,
Tu verás em seguida sucumbir
Nesse belo oceano o meu futuro”.
Adélia
Correa faleceu em Niterói, RJ, em outubro de 1956, deixando uma cópia
satisfatória de belos sonetos.
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