NELSON MAIA SCHOCAIR

 

MUNDO LOUCO, MUNDO ESTRANHO

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

               Quando Nelson Maia Schocair, Osvaldo Martins, já falecido, e eu formamos uma banda, a “Lua Nova”, que passou a chamar-se “Carta Geográfica”, em homenagem ao poeta surrealista mineiro Murilo Mendes, o meu xará apresentou uma canção sua que dizia: “Mundo louco, mundo estranho, mundo cheio de visões; em cada passo um compasso marcado de lutas sem fim”.

               Folheando uma antologia de poetas de língua inglesa que passou pelas minhas mãos, eis que encontro a seguinte frase, do romancista inglês Ford Madox Ford (1873 – 1939): “Mundo estranho e fantástico. Por que a gente não pode ter o que quer”.

               A referida frase faz parte do livro “O bom soldado”, que ainda não li. E acho que nem meu amigo o leu.

               Foquei minha crônica nesta curiosa frase, “mundo estranho”, sintonia misteriosa  que uniu, inconscientemente, nesta crônica, o meu amigo e Ford.

               O mundo estranho, de que fala Schocair é o mundo está permanentemente em guerra, porque esse conflito é alimentado pelos poderosos empresários fabricantes de armas, que, em toda a história da humanidade, apenas serviram para tirar a vida do próximo; geralmente, um jovem soldado, apaixonado pela glória manchada de sangue e alienado pela ideia de um nacionalismo ufanista e insano.

               E é por isto que eu, um simples escritor, prefiro reconstruir a frase bélica e sanguinária “Se queres a paz, prepara-te para a guerra” para “Se queres a paz, prepara-te para a paz”; afinal, não estamos na Roma antiga ou na Idade Média.

               Mas, infelizmente, o gabinete do ódio e o gado festivo, apaixonados por armas e pela mentira, não pensam como nós, o que torna difícil a evolução intelectual da humanidade. Estou para ver o poderoso chefão deste país e seus herdeiros divulgarem livros inteligentes, alimentos para o cérebro, e não fuzis, enterrando, assim, toda essa onda de irracionalidade, que vem contaminando a mente dos brasileiros.

               “Mundo cheio de visões”, porque estamos, sim, a todo instante, percebendo o que a futura geração desta nação, que, ingenuamente, Mário de Andrade classificou com generosa, receberá de herança dessa caterva desequilibrada e sádica, que, ao sair do armário, se alastrou como praga do sul ao norte. Não precisamos ser videntes para imaginar o que virá. E será, no futuro, uma dolorosa reconstrução, pois o estrago foi deveras enorme, tanto no plano da ecológico, quanto no da Saúde ou no da Educação, por exemplo.

               São lutas sem fim, contra o fascismo, monstro de sete cabeças, que vêm enriquecendo os ricos empresários, fabricantes destas armas letais, o ódio, a ignorância e a insensibilidade, que destroem almas e cérebros humanos.

               Ford talvez tenha se referido a uma literatura humanista, ainda que, como toda alma nobre, ache que “o mundo é um lugar mau, um terrível lugar para se viver” -  frase que retiro de uma música da banda escocesa The Marmalade, que me veio à mente, neste momento.  E, por certo, Schocair também pensará o mesmo, ainda que o escritor brasileiro seja, também, um professor de esperança; afinal, não sentaria no chão para fazer música.

               Questiona o inglês por que não podemos ter aquilo que queremos? Mas o que queremos? Quem pode ter o que deseja, se não for de uma classe privilegiada? Uma grande parte da humanidade cansada de guerras e fugas quer a paz definitiva – para os seus e sua futura geração. Aquela parte que não almoça e janta, também. Lúcido, o poeta maranhense Ferreira Gullar se espanta diante da dura realidade.

               O fim da fome, do desabrigo, do racismo, da homofobia, do fascismo, do nazismo,  das fugas de países ditatórias e em guerra constante para países artificialmente democráticos e de todos os obstáculos que impedem a evolução intelectual da humanidade é um sonho constante, para todo ser humana de alma nobre, porque todos têm direito à felicidade.

               Nunca li Ford Madox Ford, como já disse, mas tenho a felicidade de conhecer um grande escritor como Schocair. Conheci-o na adolescência – escrevemos canções em parceria - e acompanho a evolução de seu trabalho musical ou literário.

               Posso assegurar que lutamos pelo mesmo ideal na Terra: Justiça Social, ecologia  e desarmamento. Se não somos irmãos pelo DNA, somos irmãos pelo sonho: de ver uma sociedade mais humana e realmente democrática.

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