O ATROPELAMENTO

 

O ATROPELAMENTO DO ESCRITOR

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

          Estou aqui me lembrando do poeta Carlos Drummond de Andrade sendo entrevistado na rua, em plena Copacabana, numa passagem de ano (não me lembro qual).

          Uma repórter da Rede Globo de Televisão (não me lembro seu nome) procurava matéria – romântica – para o novo ano que entrava. E eis que surge poeta de Itabira.

          A jovem repórter, sequiosa de palavras bonitas e românticas, entrevistou o poeta e perguntou-lhe o que ele teria a dizer de positivo para os telespectadores:

          “- Não tenho nada  de bonito e romântico para dizer”, respondeu o poeta. “– Sou muito pessimista”. E mostra os carros sobre a calçada de Copacabana. “–Sou um homem idoso, de mais de 80 anos, e não tenho por onde caminhar, porque os carros ocupam toda a calçada”. 

          Pois vejam vocês o que aconteceu comigo na tarde de ontem (10.2.2016), numa rua de Bento Ribeiro, subúrbio do Rio de Janeiro.

          A referida via estava repleta de carros sobre as duas calçadas. Diante deste quadro, resolvi ir pela rua e, de repente, fui atropelado. O cuidadoso motorista, que vinha devagar, parou o carro e veio dialogar comigo. E me pedir desculpas.

          O senhor me desculpe. – O senhor quer que eu o leve a um hospital?

          Respondi-lhe que o erro não era dele nem meu, mas, sim, de quem estaciona carros na calçadas, não deixando espaço para o pedestre caminhar. E que o atropelamento não era de muita importância.

          Vivemos, enfim, numa cidade não muito maravilhosa, onde o cidadão não tem direito algum.

          O mestre Drummond já havia nos alertado para isto. Mas eu era um jovem cheio de vida, que pensava que a minha velhice estava muito distante, e pouca importância dei àquele assunto.

          Hoje, aos 60 anos, já visualizo o que vai acontecer comigo – e com tantas outras pessoas – daqui a uns 10 ou 20 anos.

...

 

Crônica escrita em 2016.

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