O PATRIARCA

 

POR CAUSA DO BONIFÁCIO...

 

Maurício Marzullo

 

               Quatro jovens, trajados à colegial, provavelmente saídos de alguma prova de História da Civilização, porque comentavam com invulgar alarido, certo fato histórico que lhes fora perguntado por um professor “sedento de vingança”, segundo diziam, num desejo quase fortuito de quererem amenizar a culpa que lhes pesava sobre os ombros, em virtude de não terem podido dar resposta satisfatória ao quesito formulado, desciam pela borburinhante Rua do Ouvidor em demanda do Largo de São Francisco, como se fossem quatro folhinhas verdes a debaterem-se contra a insensatez da sorte, intempérie que os arrojara às águas, na avalanche das ondas.

               Como tudo na vida, quando há sempre um fato a olhar para os nossos próprios fatos, eis que, ao desembocarem no Largo de S. Francisco, foram dar de cara com a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, figura simbólica da brasilidade, cujos olhos, espiando diretamente para a Rua do Ouvidor, pareciam severa censura à culpa dos colegiais.

               E, ao cruzarem pela base do monumento, foi com o rabinho entre as pernas que o fizeram, pois sentiram que aqueles olhares sisudos não admitiam tamanho pouco caso às coisas do passado.

               Felizmente, porém, surgiu-lhes pela frente o vulto sereno e altivo do professor de História, cabelos soltos ao vento, pince-nez de ouro, mosca, cavanhaque, bigode Mosqueteiro, terninho cintado, calças pescando siri e estreitinhas em baixo, sapatos de verniz, um tanto gastos, guarda-chuva já desbotado, pasta pedindo outra e gravata à poeta preta, com camisa e colorinho brancos, espalhando a singeleza do seu espírito.

               Assim que o viram, exclamaram alvissareiramente, como quem grita Independência ou morte:

               - Professor!

               - Professor – disse-lhe um do grupo, achegando-se mais -, venha tirar-nos uma dúvida.

               - Pois não! – obtemperou-lhes o Mestre, cheio de amabilidades, interrompendo os passos, já rodeado de alunos.

               -  E ali no Largo, nas proximidades da venerável estátua do velho Andrada, foi-lhe feita, quase à queima-roupa, desta vez baixinho, com receio, talvez, de que o Bonifácio ouvisse a tal pergunta que os importunava e que ninguém conseguiu saber qual fora.

               Minutos de silêncio se seguiram. Os estudantes, aguardando a resposta; o professor, que os Céus lhe mandassem, ao menos, um par de asas para sair daquelas aperturas, pois não atinava com a resposta. O seu gesto de coçar a cabeça e de olhar para o Infinito, nervosamente, era bem significativo...

               Depois do curto lapso de tempo, em que o badalar do sino da Igreja de S. Francisco de Paola, dando as onze horas, era distintamente ouvido, apesar do barulho ensurdecedor dos bondes e automóveis que passavam celeremente, o respeitado pedagogo, virando-se resolutamente para os rapazes, disse-lhes, algo constrangido:

               - Sinto confessar-lhes, meus filhos, que, de momento, assim, em plena via pública, é-me impossível atender ao pedido que vocês me fizeram.

 

               Entreolharam-se os moços, meio confusos. O mais afoito, porém, saindo-se lá do seu mutismo, mais. E a querer vingar-se da nota má que lhe deram, do que mesmo para achincalhar o seu pobre professor, que se entristecera, retrucou-lhe um tanto insolitamente.

               - Mas, professor! O senhor, com tantos livros de História publicados, que nos aperta o crânio nos dias de prova, não nos sabe esclarecer uma indecisão destas?!

               E saiu, cheio de razão em direção à Rua do Ouvidor, sob os olhares inquisidores dos rapazes, e do próprio Patriarca, que passou a vê-los pelas costas. (*)

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(*) Conto publicado na p. 40 da revista Vida Nova, edição de maio de 1944.

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Maurício Marzullo (1915-2008) foi advogado, poeta e cronista. Filho de Emílio Marzullo e da atriz de teatro e cinema Antônia Soares Marzullo, Maurício era tio de Nelson Marzullo Tangerini. Foi casado com Antonietta Saturno Marzullo, com quem teve 4 filhos: Letícia, Marisa, Maria da Graça e Maurício Jorge. 

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Deixou uma vasta obra poética a ser publicada.

              

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