PORTUGAL

 

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

                Em abril de 2002, a convite do escritor português Edgar Rodrigues (nome literário de António Francisco Correia), tive a oportunidade conhecer Portugal, onde participei de 3 palestras (duas em Lisboa e uma no Porto) sobre o trabalho do escritor, cujo pai foi covardemente torturado e assassinado pela ditadura de António de Oliveira Salazar. Uma das palestras, a mais emocionante, aconteceu em Lisboa, no Museu da Resistência, templo da luta contra o monstruoso fascismo comandado por Salazar.

                Passei apenas um mês em Portugal, o bastante para conhecer a profundidade da luta daqueles que enfrentaram  uma ditadura obtusa e sanguinária e que, ainda hoje, mantêm acesa a chama da sabedoria – crentes de que a luta pela redenção intelectual e humana ainda é possível.  

                Em Lisboa, meus amigos portugueses me levaram até a Praça do Rossio, palco das desumanas fogueiras da inquisição. Ali, muitos judeus e ateus – considerados infiéis e  hereges – tornaram-se cinzas, consumidos que foram, sob aplausos e xingamentos, pelo fogo do fundamentalismo, do negacionismo e, enfim,  da intolerância e da ignorância promovidas pela igreja. Num relâmpago de pensamento, meu amigo Manuel Vieira, piadista, sugeriu que eu pusesse a mão no chão da Praça para ver se ele ainda estava quente.

               Na Europa – durante os anos 1940 -, a Santa Madre Igreja Católica apoiou abertamente o fascismo: em Portugal (Salazar), Espanha (Franco) e Itália (Mussolini) – para sermos mais exatos. Na Alemanha (de Hitler), ela também sujou suas mãos, quando apoiou o nazismo.

               Estamos em 2022, século 21,  e, novamente, batemos de frente com criacionistas ignorantes que, cinicamente, anunciam uma nova era fascista e muito perigosa: pois o fundamentalismo religioso, raivoso, agressivo, é o responsável pelos inúmeros  ataques a todos que teimam em defender a democracia, em pensar diferente ou estar na oposição em relação ao desgoverno. É muito triste ver que a religião, “ópio do povo”, mais uma vez sai do armário em defesa das armas, do autoritarismo e das perseguições.

              Chegamos a este ponto: as pessoas não leem mais jornais ou revistas e também não assistem mais aos telejornais. Os pastores das igrejas pentecostais se encarregam dessa lavagem cerebral, de destruição do jornalismo e dessa desconstrução da intelectualidade, o que me faz lembrar de Darcy Ribeiro, que nos “avisou” quanto a este câncer que, há anos, vem evoluindo para a metástase. Estava certo o antropólogo quando disse que havia um plano monumental para bestializar o povo, que, hoje, não acredita mais na imprensa e na História. Preferem se guiar por fakenews bolsonaristas e pelos noticiários duvidosos e mentirosos das emissoras Jovem Pan (rádio e tv) , SBT (tv) e Record (tv), emissoras conservadoras e de extrema-direita que ignoram solenemente a corrupção do desgoverno Bolsonaro. A submissão faz parte do ensinamento religioso.

               Tudo isto nos leva a crer que o inculto e trevoso passado  está muito próximo do presente – talvez esteja dentro dele -, com grandes probabilidades de não haver futuro.

                 O que leva, por exemplo, o povo chileno a recusar uma constituição progressista e avançada?

                 O que leva o ser humano a desejar a volta da inquisição, do nazismo, do fascismo e da ditadura militar?

                 O que leva os jovem, porém velhacos por dentro - dizem-se conservadores -, a idolatrar um ser desprezível, desqualificado, desequilibrado, inculto, negacionista e misógino,  que comprou inúmeros imóveis – incluindo mansões - com dinheiro vivo, que trata jornalistas mulheres com grosseria, cultua torturadores, nega vacinas, promove desmatamentos, queimadas, garimpos em reservas indígenas e não investiga estupros de índias e extermínios de índios e assassinatos de jornalistas e indigenistas?

                Os livros de História terminarão seus dias na fogueira? Dizem os historiadores que, depois de os livros serem consumidos pelo fogo, seremos nós, escritores e pensadores, a vermos de perto as chamas que nos transformação em cinzas.

               O cristianismo raivoso e autoritário está de volta. Num piscar de olhos revemos toda a História da Humanidade. Inquisidores, nazistas e fascistas se juntam para destruir qualquer possibilidade de democracia. Ou de qualquer ascensão intelectual da humanidade.

               As fogueiras portuguesas se apagaram. Esperamos que não ressurjam. O chão da Praça do Rossio não estava quente. Eu conferi. Mas, no Brasil, as fogueiras já ardem. E tenho visto gente a arremessar lenha para a fogueira aumentar.

             Eu avisei. Muitos avisaram.

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