SONETO DO PALEOLÍTICO
SONETO
RESGATADO DO PALEOLÍTICO
Nelson
Marzulo Tangerini
Em 1941, não se sabe como, o jornal
Correio de Alagoinhas, da cidade de Alagoinhas, interior da Bahia, foi parar
nas mãos poeta Maurício Marzullo, meu tio, que trabalhava em Paraíba, Piauí.
Folheando o referido jornal, eis que
Maurício encontra uma paródia do soneto Essa mulher, de seu cunhado Nestor
Tangerini, publicado no jornal Gazeta do Brasil, do Rio de Janeiro, em 1934.
Imediatamente, Marzullo recortou o
texto do jornal baiano e o enviou, para o Rio, dentro de uma carta familiar,
com a seguinte recomendação: “Para ser entregue ao Tangerini”.
De Rey, autor da paródia, seria um
homem ou uma mulher? Esse homem seria o patrão ou o presidente Getúlio Vargas? “Eis
a questão”.
Eis o soneto de De Rey, escrito,
segundo o autor, em Pedra Lascada, em 3/5/1941:
ESSE HOMEM
Esse “homem”
faz a minha “diferença”,
Esse “homem”
acaba com meus pobres dias;
Atira-me no
abismo da descrença,
E faz
morrerem minhas alegrias...
Esse “homem”
oh! maldade atroz, imensa,
Não põe um
término às suas arrelias..
Esse “homem”
só, unicamente, pensa,
Em aumentar
as minhas agonias!
Esse “homem”
vil, que tanto me maltrata,
Que, dia a
dia, me tortura e mata,
Esse “homem”
é um velho de “plantão”.
O soneto original, de Nestor
Tangerini, publicado no Livro Humoradas, pela editora Autografia, em 2016, chama-se
Essa Mulher e se refere à dona de alguma pensão, por onde o poeta jamais
passou:
ESSA MULHER
Essa mulher
é a minha diferença,
essa mulher
acaba com os meus dias:
atirou-me no
abismo da descrença,
assassinou
as minhas alegrias...
Essa mulher,
cuja maldade imensa
não põe
termo às suas tiranias,
essa mulher
unicamente pensa
em aumentar
as minhas agonias!...
Essa mulher,
que a todo tempo vejo
saciando em
meu sofrer o seu desejo,
essa mulher
nasceu sem coração...
Essa mulher,
que tanto me maltrata,
que, dia a
dia, me tortura e mata,
essa mulher
é a dona pensão.
Nestor Tangerini não se aborreceu com
o soneto de De Rey, que, copia, inclusive, a sua verve satírica. Pelo contrário.
Alguém, sentindo-se na era da Pedra Lascada, leu o seu trabalho, e isso já era
um bom começo.
Em Niterói, RJ, na década de 1920,
Nestor Tangerini e Luiz Leitão, poetas satíricos do Café Paris, eram craques em fazer paródias de sonetistas consagrados,
como Bocage, Alberto de Oliveira e Luiz Guimarães Jr.
Comentários
Postar um comentário