A LANTERNA DE MACHADO DE ASSIS

 

A LANTERNA DE MACHADO DE ASSIS  

 

Nelson Marzullo Tangerini 

 

               À moda do “Bruxo do Cosme Velho”, vou também atravessar as ruas do Brasil com a Lanterna de Diógenes - a ver se encontro algum novo assunto para minhas crônicas. E os assuntos são muitos. Porque os males de nossa história voltam a se repetir. E a nos surpreender.

               Se o Brasil não é um país exótico, motivo para uma tese de mestrado ou doutorado, do ponto de vista psicológico, é, por certo, um aumentativo da Casa Verde, aquele hospital de alienados de Itaguaí, Estado do Rio de Janeiro, manicômio fluminense, comandado pelo Dr. Simão Bacamarte, que, por fim, é internado como um alienado.

               No Brasil, o voto ainda é obrigatório. Sem celular para fotografar o que vi pela manhã, na zona eleitoral, em que devo votar, em Piedade, faço um retrato textual da mais perfeita escatologia em que o país se atolou. Portanto, passo a descrever, em minha humilde crônica, o que minhas cansadas retinas foram obrigadas a presenciar – com grande tristeza.

               O local de votação me fez rir muito – por dentro, com medo de levar uma surra de um fascista -: um torcedor com a camisa Flamengo – com propaganda da Havan no ombro -, um sujeito com roupa camuflada – sugerindo militarismo -, um casal com camisas verde e amarelas da seleção, uma senhora com casaco verde e amarelo, dois pitbuls bolsonaristas bombados e um evangélico tenso com a bíblia na mão.

               Ali, compenetrados, empedernidos de ódio, todos estavam dispostos a defender a família cristã e a pátria - do comunismo.

               Quando falo que percorrerei as ruas deste imenso país, hoje imerso no desleixo pela sua história recente – ditadura, prisões arbitrárias, tortura e assassinatos de opositores -, percebo que caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro é o mesmo que andar “por entre a gente” que desistiu de ler livros,  jornais e ver e assistir aos noticiários políticos apresentados pelos canais televisivos. Porque preferiram acreditar em fakenews, em emissoras repetidoras das mentiras ditas pelo presidente e pelos conselhos dos pastores evangélicos que, nas igrejas, ordenaram que suas ovelhinhas devem abster-se de livros, jornais e telejornais.

               Assistimos pacificamente ao desmonte de todas as nossas lutas – em prol da Saúde, da Educação, do Meio Ambiente e dos Direitos Humanos.

               Índios, indigenistas e jornalistas são assassinados; madeireiros e garimpeiros invadem reservas indígenas e destroem nossas florestas; nossos rios amazônicos estão repletos de mercúrio; o fogo assassino destrói florestas em Mato Grosso e Pará; um ministro do Meio Ambiente é afastado por beneficiar madeireiros e garimpeiros; outro ministro é afastado por corrupção no Ministério da Educação; a família do presidente compra mais de 51 imóveis com dinheiro vivo; dois filhos do presidente compram mansões milionárias; um dos filhos faz rachadinha livremente; o presidente protege os filhos corruptos; a última esposa do presidente recebe cheque substancioso de Queiróz; e, quanto a tudo isto, o presidente impõe 100 anos de sigilo absoluto. E nada disso incomoda esse gado acéfalo e obediente que acompanha insensível a corrupção que assola o país neste momento. Por certo, esse gado acéfalo abandonou a leitura e o jornalismo investigativo sério que mostra a triste realidade por que passamos. Tudo isso sem contar com as agressões verbais às jornalistas Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, e Vera Magalhães, da TV Cultura, e o desprezo pela cultura, educação e ciência – como vimos, nos casos da vacina contra a covid, quando o presidente fez propaganda de remédios ineficazes e declarou que não era “coveiro”, quando perguntado pelo número de mortos.

               Outras pérolas há, como riso debochado em relação àqueles que, sem oxigênio, morriam com falta de ar. Enquanto isso, o presidente passeava de jetsky, em meio a uma pandemia que ceifava milhões de seres humanos em todo o Brasil e todo o mundo.

               Pedro Dória, em seu livro “Fascismo à brasileira”, Editora Planeta, nos alerta que o integralismo de Plínio Salgado não está morto e que volta, hoje, com um formato bolsonarista. E isto é verdade, quando vemos o presidente a copiar motociatas feitas no passado por Benito Mussolini, o Duce, que hoje reencarna de saias numa presidente da Itália.

               A ministra bolsonarista Damares Alves, por exemplo, declarou, recentemente – e foi matéria do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, MG -, que tem simpatia pelo integralismo, o que deve ser motivo de preocupação e nos obriga a ler atentamente o interessante livro de Pedro Dória. O integralismo, como se sabe, era um movimento que abrigava, em seu seio, fascistas e nazistas. Fez barulho, tornou-se um partido político e quase assassinou o presidente Getúlio Vargas, como Dória descreve com precisão neste precioso livro.

               Anestesiado - ou descerebrado? -, o povo opta pela ignorância, pelo esquecimento intencional, e pelo discurso armamentista e do ódio – à moda de Mussolini, fiel amigo de outro genocida: aquele monstro que matou mais de 6 milhões de judeus na Alemanha. Ler e pensar dão muito trabalho. O livro, para esse bando de idiotas, é um conjunto de folhas de papel com um monte de coisas escritas; um arma letal e perigosa, inventada pelos comunistas. Seu destino é o fogo inquisidor que, volta e meia, torna a nos assustar com suas labaredas, porque, lamentavelmente, a história se repete.

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