RONALDO LUPO
A VOZ GALANTE DE RONALDO LUPO
Nelson
Marzullo Tangerini
Quem liga para o número
telefônico de Ronaldo Lupo, ainda ouve a voz do Cantor Galante, do compositor
de grandes sucessos, do pianista talentoso, do violonista virtuoso e do cineasta
sempre inspirado e humorado.
Conheci Ronaldo pessoalmente.
Era amigo de Nestor Tambourindeguy Tangerini, meu pai. Com ele escreveu as
canções Manon, Não me convém, Vou desistir de namorar, entre outras, e textos
humorísticos para a Rádio Clube do Rio de Janeiro, na década de 40 do século
passado.
Lupo tinha uma grande ligação
com minha família. Quando podia, visitava-nos em nossa casa no distante,
longínquo bairro suburbano de Piedade. Minha avó materna, Antônia Marzullo, atriz
de rádio [Rádio Nacional], cinema, teatro e televisão, mãe do advogado e poeta
Maurício Marzullo, meu tio, e das atrizes Dinah, minha mãe, e Dinorah Marzullo,
minha tia, trabalhou em seu filme As aventuras de Chico Valente.
Estive com Ronaldo Lopovici,
filho de judeus romenos, em 1999, em sua casa de Saquarema, Estado do Rio de
Janeiro, onde se refugiou, quando eu escrevia o livro Perfil quase perdido –
Uma biografia para Nestor Tangerini.
O artista insistiu tanto que eu
fosse visitá-lo, que acabei aceitando o convite. Sempre conversávamos por
telefone. quando cheguei a Saquarema, numa bela tarde ensolarada de verão,
Ronaldo – o mesmo Ronaldo Lupo de sempre – elegante, alegre, sorridente, bem
humorado e gentil – me esperava em seu carro na rodoviária e me levaria até sua
casa, onde fiquei hospedado e tive mordomias de chefe de estado.
Naquele final de semana,
caminhamos juntos pela praia, passeamos de carro, visitei seu ranário e
testemunhei o amor com que tratava seus cães e os cães da rua.
O amor e o carinho por Alice
Alves, namorada eterna, sua primeira e única paixão, eram ainda os mesmos do
início de suas vidas.
Na piscina, conversamos sobre
os grandes artistas do passado e do presente – Ataulfo Alves, Grande Otelo, Nat
King Cole, Cole Porter, Ray Charles, Rubinstein, Dercy Gonçalves – nacionais e
internacionais – e, ali, me confessava sua grande admiração por Nestor
Tangerini.
Lembrei-lhe um fato do qual ele
já não se recordava mais: o velocípide que ele me deu de presente quando fiz 5
anos de idade. Aliás, o melhor, o mais forte e mais bonito velocípide que tive
em minha infância. Lembro-me ainda do presentão dentro de seu carro, uma
caminhonete, se não me falha a memória.
Quando me enviou seu cd, gravado
aos 91 anos, o que levou Affonso Romano de Sant´Anna a escrever-lhe uma
belíssima crônica, publicada no jornal Estado de Minas, Ronaldo me disse que
gostaria de gravar outro, com músicas que escreveu de parceria com meu pai. Mas
veio a morte de Alice, que muito o abalou. Viriam a tristeza, a saudade da
esposa, e a coração de Ronaldo silenciou para sempre.
Ronaldo Lupo nos deixou no dia
18 de agosto último. Sabia, por Renée Lupovici, sua irmã e fã, que ele estava
numa cadeira de rodas. Mas achei que A voz galante ainda driblaria mais esse
obstáculo.
Posteriormente, soube de sua
morte através de uma nota publicada num jornal do Rio. Dias depois, uma
biografia sua, escrita pela própria irmã, seria publicada na imprensa, uma vez
que nenhum jornalista se lembrou de escrever alguma coisa sobre o grande
artista.
Liguei para sua residência de
Saquarema, Renée estava no Rio. Liguei, então, para a de Laranjeiras. Ouvi sua
voz na secretária eletrônica e, emocionado, deixei-lhe um recado:
- Ronaldo, que bom ouvir a sua
voz!
Renée me telefonou, dias
depois, e, juntos, falamos de nossas mágoas.
“ - Meu irmão foi esquecido!
Ele não merecia isto! Amava este país! Ele deu seu sangue pelo cinema e pela
música do Brasil! Ninguém me telefonou! Tive de pôr uma biografia sua no
jornal, para que não caísse em esquecimento! – me confessou em prantos e
revoltada. E completou: “- Ele gostava muito de seu pai, tinha uma grande
admiração por ele!”.
Ronaldo Lupo não deixou apenas
uma voz gravada numa secretária eletrônica, deixou filmes, discos, um cd,
músicas gravadas por artistas diversos.
No momento em que minha mãe,
Dinah Marzullo Tangerini, ex-atriz da Cia Alda Garrido, 88 anos, amiga de sua
querida Alice, com Mal de Alzheimer e tumor cerebral, também se despede
lentamente deste país ingrato e sem memória, deixo aqui meu depoimento, lembrando
frase sua, que retiro de seu cd Para os amigos: “Ninguém é tão velho, que não
possa realizar seu sonho”.
Agradecido, Ronaldo Lupo!
Texto escrito em agosto de
2005, antes do falecimento de Dinah Marzullo Tangerini [*1.6.1917 - + 22.10.2005].
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Nelson
Marzullo Tangerini é filho do escritor Nestor Tangerini
e neto
da atriz Antônia Marzullo.
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