A CULPA É DOS GREGOS
A CULPA É
DOS GREGOS
Nelson
Marzullo Tangerini
A ignorância, nos dias de hoje, não
tem limites. A falta de conhecimento da história brasileira e universal leva o
indivíduo a sair por aí vomitando asneiras e inverdades – uma delas, de que não
houve ditadura no Brasil. Como, se livros foram escritos sobre o assunto? Como,
se documentários com famílias de desaparecidos são constantemente exibidos na televisão e até
mesmo são encontrados na internet?
Um dia desses, no Méier, um fascista
tentava me convencer de que “a Espanha é o que é hoje graças ao Generalíssimo
Franco”, um dos maiores assassinos da história. E o imbecil tentava me
convencer, ainda, de que “foi preciso matar para salvar a Espanha do comunismo”.
E que “deus salvou a Espanha”, o que me fez perguntar se deus é fascista.
Vendo um crucifixo pendurado em seu
pescoço, falei-lhe que a Santa Madre Igreja Católica apoiou o fascismo em
Portugal, Espanha, Itália e Alemanha.
A viúva de Franco alegava, ainda, com
arrogância e discurso notadamente autoritário – falava alto, impondo o seu
pensamento -, que era descendente de espanhóis e que conhecia a história da
Espanha melhor que eu. Defendi-me,
dizendo que era professor, não era
descendente de espanhóis, mas conhecia a
história pelos livros. E que convivi com espanhóis antifascistas. E que, sendo
descendente de italianos, sabia muito bem o que acontecera na Itália, sob a
ditadura desumana de Mussolini.
E o imbecil prosseguiu dizendo que
era religioso e que o que está acontecendo no Brasil é prova da existência de
deus. E voltei a lhe dizer: “- Então, deus é fascista!”
Os fascistas e os saudosos da
ditadura, do autoritarismo e das torturas desprezam a História. E chegam ao
ponto de defender a tortura e idolatrar torturadores.
Mahatma Gandhi, que viu de perto o
desumano imperialismo britânico em sua Índia natal, dizia que “Se quisermos
progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova”.
Conhecendo a vida e a luta de Gandhi, sabemos que ele nos indicava o caminho
para um novo mundo, onde a paz, a liberdade e o respeito ao ser humano seriam o
rumo a ser seguido.
Por que os saudosos de ditaduras –
religiosas, de direita e de esquerda - querem apagar a história? Por que têm
medo da História? E por que as ditaduras de direita se apegam à religião para
justificar a tortura e os assassinatos? A todo instante vejo e ouço pessoas
cristianíssimas defendendo o autoritarismo, a ditadura e a pena de morte,
quando o próprio Cristo nos deixou aquela famosa frase: “Não matarás!” Serão os
cristãos seguidores de Cristo? Não sabem eles que o Cristo também foi torturado
até a morte? Na ditadura militar, generais católicos fervorosos fechavam os
olhos para o que estava acontecendo no Brasil: milhares de pessoas sendo presas,
torturadas e assassinadas. Sem contar com crianças arrancadas [sequestradas] de
seus pais e adotadas por famílias simpáticas a um sistema assassino. Mas eles
defendiam a pátria e a família – destruindo famílias?
A História não é decoreba. Exige
raciocínio. Estudamos História porque tentamos transformar o ser humano; porque
não queremos que as atrocidades voltem a
se repetir. Daí Gandhi pensar em construir uma nova História, mais humana. Plagiando Goethe, diríamos que estudar
História é um modo de nos livrarmos do pesadelo do passado.
O Planeta Terra parece ser um lugar
pequeno e, a todo instante, convivemos com os saudosos de ditaduras: na
família, nos bares, nas ruas e nas escolas. E eu ainda não sei por que dou
ouvidos a essa gente pouco evoluída, que acredita, sem argumentos firmes e civilizados, gritando,
falando alto, fora de controle, que a saída para a crise é um regime duro e
autoritário.
A culpa é dos gregos. Principalmente,
dos cidadãos atenienses, como eu, que acredita na arte, na liberdade e nos
altivos valores da democracia. Mas temos de conviver eternamente com os
sisudos, autoritários e militarizados espartanos, do outro lado da política.
Enfim, seria monótono demais conviver no mesmo Planeta com quem pensa igual
a nós. E talvez seja isto que nos dá sal à vida. Ao cronista, que busca
inspiração em pedaços de diálogos que flutuam como poeira nas ruas movimentadas
da cidade, nas salas de professores e em conversas familiares, que ele aprenda
a decifrar, codificar, entender e respeitar o discurso do outro, embora não
concorde com ele. Sócrates viu de perto
o quanto é difícil dialogar com mistificadores. A crítica ao sistema faz parte
da democracia; ela oxigena o cérebro e abre caminho para o diálogo inteligente.
Defendamos, pois, o uso permanente da
dialética e dos nobres valores da
democracia e da luta pelos direitos
humanos. Tortura nunca mais!
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