A SOGRA
SOGRA TAMBÉM É MÃE
Nelson Marzullo Tangerini
É antiga a guerra genro x sogra
ou nora x sogra. Porque de dois males, no seu entender, dificilmente a gente se
livra na vida: coqueluche e casamento, calculou Nestor Tangerini um dos maiores
sonetistas satíricos da Língua Portuguesa, que, quando menos esperasse, estaria
casado. Por isso, e não compreendendo “como uma sogra pode ser mãe”, o
solteirão resolveu antegozar a morte de sua “futura megera”. O soneto
“Ano-Bom”, publicado 10 anos antes de conhecer sua futura esposa, a bela atriz
de teatro Dinah Marzullo, filha da também atriz – de teatro , cinema, rádio e
televisão – Antônia Marzullo, foi publicado no jornal O Fluminense, Niterói,
RJ, em 1929.
Ei-lo:
“Stou à janela, à meia-noite, à
espera
de que surja o Ano-Novo ao meu
olhar...
Nos fundos, lá num quarto, uma
“pantera”
aguarda a morte, que a não vem
buscar.
Risonho, alegre como a
Primavera,
o Ano-Novo se mostra, a
rebrilhar,
nas estrelas de um céu
azul-quimera
que nos promete um Ano-Bom sem
par.
.........................................................................
Já me havia esquecido a moribunda,
quando uma choradeira
desmedida,
se faz ouvir, em grande
barafunda!
Falecia-me a sogra... Mais
ninguém...
- Pela primeira vez, na minha
vida,
um Ano-Bom me começava bem.”
Conhecidamente gozador,
Tangerini, antevendo sua sogra em cima de uma mesa, escreveria, mais tarde, uma
trova devastadora:
“Qual doce pombinha mansa,
deitada aqui muito bem,
a minha sogra descansa
e o genro dela, também.”
Antônia, claro, riu a valer da
brincadeira. Até porque Nestor Tangerini e Antônia eram muito amigos. E fãs um
do outro. Todos eram muito unidos e amigos: Antônia, José, Dinah, Tangerini,
Dinorah, Pêra, Maurício, Netinha e crianças. Todos eram artistas e se admiravam
mutuamente.
Muitos, porém, achavam estranho
haver um Tangerini e um Pêra numa só família.
A revista de humor e sátira
carioca O Espêto, de Nestor Tangerini, Aldo Cabral, Lourival Reis [o Prof. Zé
Bacurau] e Maurício Marzullo (cunhado de Tangerini), 15 de abril de 1947, em
sua coluna “A sociedade n´O espeto /
Noivados”, página 6, faz uma piadinha com Tangerini, Pêra e Antônia, criando,
para ela, uma terceira filha:
“A atriz Antônia Marzullo,
sogra do ator Manuel Pêra e de Nestor Tangerini, acaba de dar a mão de sua
filha Iara ao Dr. Joaquim Pimenta.
Parabéns à distinta atriz, pelo
progresso em sua quitanda...”.
Fã de Antônia Marzullo, Nestor
Tangerini escreveria, em 1938, antes, portanto, do seu casamento com Dinah, um
belo soneto para Antônia, que partira com a Cia. Palmeirim Silva rumo a São
Paulo e Rio Grande do Sul:
“À ANTÔNIA MARZULLO
Boa amiga Marzullo, meus
saudares.
Conforme já lhe disse, certo
dia,
a minha pena é a pena mais vazia
em matéria de cartas familiares.
Mas, como prometi lhe escreveria,
quando de cá se foi para outros
ares,
eis que hoje cumpro, em linhas
chãs, vulgares,
a promessa que há muito lhe
devia.
Aqui vão todos bem: eu, a
Bolinha,
etc., e o Maurício, sempre
afoito,
correndo para a casa da Netinha.
Sem mais, com mil abraços, ponho
um “fine”.
Rio, sete de abril de trinta e
oito.
Nestor Tambourindeguy Tangerini”.
Nestor, Dinah, Antônia, José e
Pêra, fotógrafo da família, se foram, mas nos deixaram, fotografados ou
escritos, momentos de poesia e rara beleza.
Crônica
publicada no jornal POLEGAR, Novo Hamburgo, no. 10, julho de 2007,
Cultura, pág. 09.
Comentários
Postar um comentário