ASINUS ASINUM FRICAT

 

ASINUS ASINUM FRICAT

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

          Na manhã do dia 3 de maio, precisei pegar um Uber para ir trabalhar no colégio onde leciono. Como de costume, fui conversando com o motorista, que tinha uma Bíblia no porta-luvas.

          A conversa, como sempre, por insistência minha, descambou para a política. Como já lhes disse numa crônica anterior, o cronista se inspira nessas conversas diárias ou nas frases e  ideias que são jogadas no ar poluído das ruas, como poeira em suspensão.

          O motorista declarou-se evangélico e eleitor do atual presidente. Perguntei-lhe o então  que achava do governo e ele me disse que o achava bom, que deveríamos deixar “o homem governar”.  Voltei a perguntar-lhe se sabia o que estava acontecendo no país, se lia os jornais. E ele disse que só lia a Folha Universal e a Bíblia. E só assistia à TV Record.

          O imbecil não sabia que o atual governo pretende fechar os cursos de Filosofia e Sociologia nas universidades federais e estaduais. Como não sabia do Golden Shower, da aluna que filmou o professor que criticara o falso filósofo Olavo de Carvalho, da perseguição aos métodos libertários do pedagogo Paulo Freire [reconhecido internacionalmente], da lavação de bilaus e  da condecoração do Messias aos seus  filhos e a Olavo, com a medalha Ordem do Barão do Rio Branco. Sua vidinha se resume a isto: trabalhar, ir à igreja, ler a Bíblia e a Folha Universal.  E dizer com sua altivez de idiota: “Se está na Bíblia eu acredito”.

          Fi-lo perceber que a História se repete e que, quanto às condecorações aos próprios filhos pelo presidente, com medalhas da Ordem do Barão do Rio Branco, lembra-nos o imperador romano Calígula, que nomeou seu cavalo, Incitatus, como senador.

          Insisti: “Tudo isto foi publicado na Folha de São Paulo, no jornal O Globo e em outros jornais do país”. E ele reafirmou que não perdia seu tempo lendo esses jornais, o que me levou a lembrar daquele velho ditado, de que “o pior cego é aquele que não quer ver”.  

         Recortei  a fala do motorista do Uber, mas podia ter recortado falas de outras pessoas dentro deste alienado país, onde a igreja jogou água sobre o fogo revolucionário do ser humano. Talvez até tenham lido Marx e aprendido com o filósofo alemão que “a religião é o ópio do povo”.  Bakunin vai mais longe. Escreveu o anarquista que “Religião é demência coletiva”. Kropotkin, outro anarquista, escreveu ainda que “A igreja mais iluminada é aquela que queima”.

          Recorro mais uma vez à mal falada História e uma frase de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitller, me vem à mente: “Deem-me o controle da mídia e farei de qualquer país um rebanho de suínos”.  O lúcido escritor britânico George Orwell escreveu justamente sobre isto em 1984 e Animal Farm [traduzido para o português do Brasil como A Revolução dos bichos]. Neste livro, ao contrário, eram os porcos que governavam com tirania sobre os outros animais – bestializados pelo governo.  

          Assistia, um dia desses, a um dvd do show Some Times in New York City, de John Lennon e Yoko Ono,  no Madison Square Garden, e, mais uma vez, percebi que a História, lamentavelmente,  se repete - contra a vontade daqueles que usam o cérebro para pensar. Quase no final do show, Yoko lê um longo discurso de extrema-direita, dizendo, entre outras baboseiras,  que as  universidades estavam cheias de comunistas. Enquanto isto, John finge marchar no palco, faz continência e aponta sua guitarra, como se esta fosse uma metralhadora. Após ler aquelas mal traçadas linhas, Yoko diz, afinal, quem é o autor do referido discurso: “Isto foi escrito por Adolf Hitler, em 1940”. A plateia vibra, aplaude, enquanto um agente da CIA [ou do FBI] observa o comportamento dos artistas no palco e do público. Eram anos difíceis, aqueles, pois os EUA enviavam jovens para a guerra do Vietnã.

         Discursos fascistas, como um vento gelado, macabro e aterrorizante, volta a nos assustar: chegam-nos através da televisão, dos jornais, da internet, de pessoas bestializadas – na família e nas ruas. Acusam as universidades de serem um nicho de comunistas, alcoólatras e maconheiros. Enfim, quase o mesmo discurso de Adolf Hitler, de 1940, lido por Yoko Ono, naquele show.

          Enquanto um festival de imbecilidades acontece no país, um bando de idiotas e iletrados aplaude o desmonte cultural do país – desde a ministra que viu Jesus na goiabeira e afirma que o homem é o chefe da casa e que o lugar da mulher é o lar, cuidando dele e da família, até ao ministro que vê  Jesus Cristo em pessoa na figura do presidente.  Enfim, os imbecilizados comemoram nas escolas, nas empreses, nas igrejas, em casa, nos quarteis e nas ruas.

          Homem de Letras, o culto professor João Paulo de Albuquerque, meu amigo, tira de sua cartola mágica um singelo ditado latino: “Asinus asinum fricat”, que em português, quer dizer mais ou menos isto:  “Os asnos se aproximam de outro asno”. O termo define bem o atual governo. Quanto a mim, preferi me aproximar dos sábios, como de meu amigo João.

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