BARROCO, ROMANTISMO E NATURALISMO

 

BARROCO, ROMANTISMO E NATURALISMO

NO BANCO DOS RÉUS

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

          Perto de me aposentar, como professor do Estado, algumas lembranças boas e más me vêm à mente.

          Em 1994, iniciava minha carreira como professor no Estado, trabalhando como professor de 40 horas, no Ciep 409 – Alaíde Figueiredo dos Santos, em Coelho, Município de São Gonçalo, Estado do Rio de Janeiro, onde lecionei por quase 5 anos e deixei inúmeros amigos.

          No 409, certa vez, quando dava aula de Literatura, notei que uma aluna olhava fixamente para a parede como se nela fosse entrar. A aula era sobre o Barroco, e a aluna se recusava a acompanhar um texto de Padre Antônio Vieira, bem como olhar as fotografias do livro, que lhe davam uma noção do que seria o Barroco nas artes plásticas: fotografias de interior de igrejas mineiras e baianas e obras do Aleijadinho.

          Caminhei até a carteira da menina e lhe perguntei o que estava acontecendo. E eis a minha indignação: a menina era evangélica e me disse que sua religião condenava o uso de imagens religiosas, bem como o texto católico de Vieira. Ainda tentei dialogar com a menina, que usava saias longas e blusas totalmente fechadas. Tentei dialogar com ela, falando-lhe sobre a importância da matéria e sobre o vestibular, que ela faria dentro de 3 anos. Nada. O jeito foi continuar com a aula e dar aula para quem estava interessado.

          No Colégio Estadual Antônio Houaiss, já no Rio, quando dava uma aula sobre o Naturalismo e falava sobre a influência de Charles Darwin na literatura naturalista, citando o escritor francês Émile Zola e o nosso  Aluísio de Azevedo, um aluno me fez parar a aula para me dizer que Darwin havia dito que o homem tinha vindo do macaco, com o que ele não concordava, porque era evangélico.

          Perguntei-lhe quem havia dito aquilo para ele ou onde ele havia lido tal afirmação. Imediatamente, o aluno me responde que o pastor de sua igreja tinha falando sobre aquele assunto num culto. Respondi-lhe que o pastor nunca havia lido A origem das espécies, de Darwin,  e que o naturalista inglês nunca tinha feito tal afirmação. E que Darwin apenas sustentava a tese de que homem e macaco talvez tivessem um ancestral comum.

          Ainda no C. E. Antônio Houaiss, uma aluna evangélica, em plena aula sobre  Romantismo, recusou-se a fazer um exercício de literatura simplesmente porque Castro Alves, o Poeta dos Escravos, indignado com a escravidão, dizia em seu poema: “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus” ou “Onde estás que não respondes?”

          Cito apenas esses três exemplos - alguns outros virão à mente numa futura crônica -,num momento em que a inculta Bancada Evangélica, devota do criacionismo e incrustada no futuro governo conservador, e, portanto, retrógrado, pensa em incentivar os alunos a denunciarem professores progressistas, socialistas ou evolucionistas, filmando-os, gravando-os  e denunciando-os – como se fazia na Inquisição ou, mais recentemente, na ditadura militar.

          Armadinejad, ex-presidente do Irã, a antiga e bela Pérsia, e também conservador, alheio ao sofrimento de seis  milhões de judeus que perderam suas vidas na Alemanha nazista, declarou, certa vez, que o holocausto nunca aconteceu. Por aqui, alguns fascistas dizem também que nunca houve ditadura militar, e que os presos políticos, opositores  do “governo” militar ganharam apenas uns safanões.

          Será muito difícil trabalhar no magistério com toda esta patrulha religiosa e conservadora que quer jogar para debaixo do tapete  a sujeira  deixada por “descobridores”, senhores de escravos, políticos, militares e patrões inescrupulosos. As resistências indígena e negra devem ser respeitadas. As terras indígenas ou quilombolas devem permanecer demarcadas,  como símbolo de uma luta pela liberdade.

          Justiça social nada tem a ver com comunismo ou socialismo. É uma questão de humanidade e sensibilidade – e é descrita na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O Brasil tem de arrumar sua casa e dar, por exemplo, moradia descente e humana aos descendentes de africanos de diversas origens, que foram escravizados durante muitos anos.

          A Escola com Partido, na mão da Bancada Evangélica, porém, não quererá que as pessoas pensem, questionem e discordem do governo – como em toda ditadura. A liberdade e o livre pensar constroem uma nação; constroem uma humanidade.

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