BRUNO E DOM

 

BRUNO PEREIRA E DOM PHILLIPS PRESENTES!

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

               No início da semana, uma notícia triste nos pegou de surpresa. O desaparecimento, na Amazônia, desde o dia 12.6, do indianista brasileiro  Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Estava distraído, envolvido com novos textos, livros e trabalhos de alunos, quando a notícia, enviada dos EUA, por uma amiga jornalista, Dolores, veio parar no meu zap. Foi um grande susto, mas preferi acreditar que a dupla seria encontrada.

               Dom participou, em 2019, de uma entrevista coletiva com o presidente Bolsonaro.  Nessa entrevista, Dom pergunta ao presidente recém eleito como ficaria o desmatamento, por parte de madeireiros e da invasão de garimpeiros em terras indígenas. Demonstrando, grosseria, arrogância e, principalmente, ignorância, reaparece, no energúmeno, a velha paranoia de sempre: Bolsonaro   responde ao jornalista: “- Em primeiro lugar, Amazônia é nossa, não é de vocês”.

               Desde a ditadura militar, fala-se que países imperialistas (Europeus) estariam querendo nos roubar a Amazônia. Tal discurso foi elaborado pela extrema-direita para distrair o povo, enquanto garimpeiros e madeireiros destroem, impunemente, a nossa grande floresta. A bola da vez é Macron, presidente da França, que estaria louco para abocanhar um pedaço da torta. Os interessados na Floresta Amazônica, todos sabemos, estão dentro do Brasil: são madeireiros e garimpeiros – protegidos por políticos da região.

               A maior parte da Amazônia está dentro do Brasil, é verdade. Essa parte (brasileira) é nossa, sim. Mas isto nos dá o direito de desrespeitar os povos da floresta, de devastá-la, de jogar mercúrio nos rios?

               Sobre o desaparecimento da dupla, disse ainda que a dupla estaria procurando “uma aventura” ou fazendo uma excursão na Amazônia. Aventura? Excursão? Bruno era antropólogo; Dom era jornalista. Ambos estavam trabalhando. A função de um jornalista é denunciar, também, crimes ambientais; a função de um antropólogo é estudar (e defender) a cultura de povos primitivos ou não, que lutam para sobreviver.  

               Bruno, que já vinha sendo ameaçado de morte por madeireiros e garimpeiros, deixou, para a humanidade, um vasto documento sobre tais atividades. Bruno avisou; Chico Mendes avisou; Dorothy Stang avisou, Marielle avisou. Outros avisaram que estavam sendo ameaçados de morte. E morreram assassinados.

               Para o presidente e seu vice, calar-se, deixar madeireiros e garimpeiros “trabalharem” é a melhor maneira de ficar bem e não morrer. Mas o lema do governo atual não era o fim da corrupção?

               Nunca a Antropologia e o jornalismo foram tratados com total desprezo, uma aventura de desocupados.

               O presidente tenta melhorar sua imagem e se complica mais ainda, dizendo que o jornalista era malvisto naquela região. Malvisto porque denunciava a destruição da Amazônia? Malvisto porque denunciava a omissão do governo Bolsonaro?

               Juro que queria escrever sobre esses dois rapazes que mostraram ao mundo o que fazem os políticos comprometidos com o desmantelamento do IBAMA e da FUNAI e as consequências que vieram a partir desse desmonte anunciado.

               Como homenagear Bruno e Dom? Como escrever sobre esses nobres seres humanos que morreram assassinados por seres desprezíveis enquanto tentavam salvar a Amazônia e os povos da floresta.  

               Enfim, a ignorância vai ganhando espaço. O gado, com orgulho de sua inferioridade intelectual, põe para fora a sua  intolerância, a sua agressividade, a sua falta de cultura, o seu reduzido vocabulário. Com o atual governo, têm plena legitimidade.

               Como Drummond, eu diria que a crônica que não escrevi está dentro de mim e não sai. Mas a triste poesia deste momento inunda a minha vida inteira. Estou triste, muito triste, com vergonha de ser brasileiro.

               Chico Mendes, Dorothy Stang, Marielle, entre tantos outros, também Avisaram. Não lhes deram ouvidos. E foram assassinados. Até quando teremos de ver, da arquibancada, essa História de assassinatos que não parece terem fim?

               Que Bruno e Dom sejam recebidos pelos deuses!

              

 

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