CAMÕES & FILHOS
CAMÕES E SEUS FILHOS
Nelson Marzullo Tangerini
Certamente, Camões não é o
primeiro poeta a escrever em português. E nós, também, não seremos os últimos. Registros
há de poetas anteriores ao grande lusitano, que num poema épico, “Os Lusíadas”,
retratou toda a gloriosa história de Portugal – em terra e por “mares nunca de
antes navegados”. Antes dele, através
das Cantigas Medievais - de Amor, de Amigo, de Escárnio e de Maldizer, outros
poetas cantariam, e deixariam registros de sua contribuição à língua
portuguesa.
Ao longo da história lusófona,
veremos que este imortal lusitano, formador da língua portuguesa, influenciou
outros poetas, como Bocage (Manuel Maria Barbosa l´Hedois du Bocage), Fernando
Pessoa (Fernando António Nogueira Pessoa) e Miguel Torga (nome literário de
Adolfo Correia da Rocha).
O Neoclassicismo, corrente
literária que se inspiraria no Classicismo, que buscava inspiração no período
Clássico, leia-se a literatura greco-latina, não poderia se olvidar da valiosa
contribuição de Luís Vaz de Camões. E,
assim, o neoclássico Bocage (* Setúbal, 15 de setembro de 1765 - + Lisboa, 21
de dezembro de 1805) , dedicou este belo soneto ao “ poeta modelo”:
“Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co sacrílego gigante.
...
Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
...
Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
...
Modelo meu tu és, mas... oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza”.
O
modernista Fernando Pessoa (* Lisboa, 13 de junho de 1888 – + Lisboa, 30 de
novembro de 1935), em seu único livro publicado em vida, “Mensagem”, viaja com
Camões nessa aventura pelo grande mar salgado da língua portuguesa. Abrindo seu
livro de poemas, sente-se nele a presença do espírito iluminado do mestre:
“MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
...
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor,
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”.
Miguel Torga (* São Martinho de Anta, 12 de agosto de 1907 - + Coimbra,
17 de janeiro de 1995) também não deixaria de dedicar a Camões um inspirado e
comovente poema, do livro Poemas Ibéricos, de 1965, no qual justifica a genialidade do grande
herói português:
“CAMÕES...
Nem tenho
versos, cedro desmedido,
Da pequena
floresta portuguesa!
Nem tenho
versos, de tão comovido
Que fico a
olhar de longe tal grandeza.
...
Quem te pode
cantar, depois do Canto
Que deste à
pátria, que to não merece?
O sol da
inspiração que acendo e que levanto
Chega aos
teus pés e como que arrefece.
...
Chamar-te
génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te
herói, é dar-te um só poder.
Poeta dum
império que era louco,
Foste louco
a cantar e a combater.
...
Sirva, pois,
de poema este respeito
Que te devo
e professo,
Única nau do
sonho insatisfeito
Que não teve
regresso!”
Há que se reler a clássica
língua de Camões tantas vezes for necessário e tratar com mais respeito a
língua que falamos, a língua na qual expressamos, na modernidade, o nosso amor
e a nossa revolta, em tempos tão difíceis como o que vivemos.
“Minha pátria é a língua
portuguesa’, escreveu Pessoa. Portanto, é através dela que reivindicaremos os
nossos direitos e veremos nossas lutas transformarem-se em vitórias. Através
dela escreveremos a nossa história – triste ou gloriosa – e construiremos a tão
sonhada democracia.
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