CARNAVAL

 

O JORNAL CARNAVALESCO DE LUIZ LEITÃO

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

               Em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, na década de 1920, auge do Café Paris, reduto de poetas, Luiz Antônio Gondim Leitão, editava o jornal carnavalesco O Almofadinha, periódico de 4 páginas que circulava apenas nos dias da Festa de Momo.

               Com dinheiro arrecadado de comerciantes niteroienses, Lili Leitão - assim o chamavam - publicava o referido jornal, que continha, além de anúncios referentes ao comércio,  piadas, crônicas e sonetos  humorísticos.

               Nestor Tangerini, vez ou outra, também publicava trabalhos seus no referido periódico, que só circulava, ano após ano, nos três dias de Carnaval.

               Muitos desses jornais acabaram se perdendo, pois,  após lidos por foliões, eram vistos no chão dos bondes e nas ruas da antiga capital fluminense, fundada pelo Cacique Arariboia.

 

               Do jornal O Almofadinha, Ano XII – Reinado de Momo, 15 a 16 de fevereiro de 1931, no. 12, retiramos o seguinte soneto propaganda para a água mineral São Gonçalo, muito apreciada pelo púbico da vizinha Niterói.

 

“ÁGUA? SÓ UMA...

 

Beber água, meu Deus, que cousa horrível!

Água não beberei, nem amarrado...

e, com sede, bebê-la, é preferível

sucumbir do que ser dessedentado.

 

Água é bebida que não é ‘bebível’,

bebida de “mocinho comportado”...

Se eu, um dia, a bebesse, é bem possível

que, ao bebê-la, morresse “envenenado”...

 

Há uma água, no entanto, que recebo

na minha mesa, e com prazer a bebo

e depois de beber, a língua estalo:

 

Água medicinal e deliciosa,

água divina, pura e milagrosa

- água que bebo – ‘Água de São Gonçalo’!”

 

               Na primeira página do referido  jornal, seu dileto  amigo Nestor Tangerini, com um de seus pseudônimos, Pastaciuta, publica o soneto piada ”Mal Entendo”, que reflete bem o pensamento conversador da sociedade fluminense da época:

 

“ ‘- Meu pai, já não sou mais pura...

Foi nesta noite... Que horror!’,

clama a ingênua criatura,

banhando em pranto o pudor.

 

E o pai – ‘Como foi, senhor

que fizeste tal loucura?’

‘- Foi... Foi num sonho de amor’.

- lhe diz a filha – e tortura!

 

E o pai, burguês negligente,

exclama então sorridente,

julgando o caso banal:

 

‘- Filhinha, não fiques triste...’,

Sonhando, onde é que já viste?

Se em sonho foi, não faz mal!...”

 

               Sobre os demais textos do velho jornal, em péssimo estado (piadas, sonetos e crônicas), a maioria trabalhos de Luiz Leitão, são ainda um exercício árduo e contínuo do escritor que vos escreve, na tentativa de salvar a memória da Niterói dos anos 1920, bem como a história desta lenda viva chamada Café Paris, ponto de encontro de poetas da segunda geração parnasiana (ou pré-moderna – como preferirem), pouco estudada ou lembrada por pesquisadores influenciados, ainda, no século XXI, pela escola modernista. 

               A visão obtusa de certos intelectuais impede que venha à tona um dos momentos mais belos e raros da literatura brasileira.

 

 

 

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