CASIMIRO E MILTON

 

CASIMIRO DE ABREU E MILTON NASCIMENTO

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

               Em 2010, creio, estive em Barra de São João, distrito de Casimiro de Abreu, Estado do  Rio de Janeiro, para um evento literário em homenagem ao poeta romântico fluminense que deu nome  àquela cidade. Acompanhava-me uma caravana de escritores niteroienses liderada por Carlos Silvestre Monaco, livreiro e idealizador do Calçadão da Cultura, à rua Visconde de Itaboraí, em Niterói.

               Ali, na Casa onde Casimiro de Abreu morou, bem preservada, ganhei um folheto, referente à “Exposição Casimiro, Memórias e História do Poeta”, que continham informações interessantes a respeito do jovem que, vítima do “Mal do Século”, a tuberculose,  teve uma breve existência, embora tenha deixado uma significativa obra, digna de figurar na história da literatura brasileira.

               Releio o referido folheto, em 2022, ano em que Milton Nascimento faz 80 anos, e resolvo focar no fragmento abaixo, que me fez lembrar de sua canção Morro Velho, que relata a história de dois meninos, amigos, um preto e um branco, que cresceram juntos numa fazenda – provavelmente de Minas Gerais -, até que o branco, filho do senhor, vai estudar na cidade grande. Quando volta, com sua esposa, já tem nome de doutor e vai se tornar o dono da fazenda, enquanto o preto continuará fazendo o mesmo serviço que seu pai fazia para o pai do menino branco – talvez sem carteira de trabalho assinada e sem oportunidade de estudar, para sair daquela condição.

               Pois o mesmo – ou quase o mesmo – aconteceu com o poeta Casimiro de Abreu, que, sem vocação para o comércio, é enviado para Portugal, pelo pai, insensível, que desejava ver o filho longe da vida literária e formado em alguma universidade portuguesa de prestígio. Enfim, era este o destino dos filhos dos  senhores donos de engenhos e de escravos.

               Para ilustrar melhor a minha proposta, eis o fragmento do folheto que me fez lembrar da canção de Milton:

               “Na freguesia onde Casimiro nasceu, os escravos negros eram mais da metade da população. Seu próprio pai, José Joaquim Marques de Abreu, era proprietário de escravos, conforme nos revela um Livro de Batismo de dezembro de 1851 a julho de 1859, onde constam os nomes de 10 escravos seus, homens e mulheres”.

               Mais além, e longe de plagiar Laurentino Gomes, vou pensando, aqui, naquela crônica de Machado de Assis, “Bons dias!”, em que um nobre senhor, visando a carreira de deputado,  discorre sobre Pancrário, aquele humilde ser humano escravizado, um “molecote” de mais ou menos 18 anos, que ganha a liberdade “antes, muito antes” da Abolição da Escravatura.

               O senhor diz-lhe, então, ao jovem alforriado, que ele é livre e que pode ir aonde quiser, o que Pancrário não se atreve a  fazer – talvez por estar psicologicamente ligado a seu antigo dono ou por ser sabedor, intuitivamente, de sua incapacidade intelectual, que o levaria a mais um grande sofrimento.

               Alienado, embora livre, Pancrário prefere ficar sob a tutela de seu antigo dono, que irá lhe pagar um mínimo salário, com promessas de aumento, ainda que, volta e meia, receba alguns piparotes e pescoções. Afinal, o rapaz precisa de abrigo e alimentação.

               Assim foi feita a Abolição, sem que os escravizados fossem indenizados por sequestro na África, assassinatos, mutilações, trabalho escravo e danos morais. E sobre as africanas violentadas por senhores e filhos dos senhores, dando início a miscigenação? Não está errado Walter Hugo Mãe, escritor angolano-português quando diz que a miscigenação brasileira começou com os estupros.

               A reparação, quanto a esses crimes, tem sido lenta. E se assim o é, os afrodescendentes têm o direito de meter o pé na porta. Justiça já!

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