CHICO BUARQUE

 

HOJE JÁ É OUTRO DIA

- QUE TAL UM SAMBA?

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

              A imortalidade nos dá a sensação de que os que se foram ainda estão por perto, entre nós; não só por deixarem seus escritos, suas músicas, pinturas ou suas fotografias.

               A arte nos dá essa possibilidade de ainda nos mantermos ligados ao passado, rico passado, que algumas ideologias obscuras querem apagar.

               Ouvi Tom, Vinícius, Taiguara, Gonzaguinha, e li Drummond, Clarice, Machado – que não é do meu tempo, mas permanece vivo e mestre para todos nós que escrevemos.

               Falo Chico, vivíssimo entre nós, filho de Sérgio, sobrinho de Aurélio, que um tempo nebuloso tentou apagar com seu denso nevoeiro raivoso e nocivo.

               Valeu a pena esperar? Valeu a pena, porque sua alma não é pequena. Francisco, com seu fado, vivo, guardado em silêncio, alimentado, porém, pela ansiedade natural dos que têm no sangue o DNA lusitano, sentiu o alívio de ver seu diploma limpo, sem “o borrão” do obtuso genocida, parodiando, aqui, o poema Navio Negreiro do revolucionário baiano Castro Alves, o poeta dos escravizados.

               Ignorar, portanto, os Buarque de Hollanda, é sinal evidente e grave da falta de cultura daquele elemento fisiológico que comandou um gigantesco desmonte – na Educação, na Cultura, na Saúde – do Brasil.

               O Chico escritor me leva a crer em todos os sonhos, naqueles sonhos sonhados por Gregório de Matos e Lima Barreto, autores de escritura crítica; aquele sonho sonhado por nós, compositores e escritores, de que a língua mantém uma comunidade unida, que agrega seus falantes, ainda que o povo esteja inconsciente deste poder agregador.

               Ainda temos por perto Chico, Milton, Paulinho, Caetano, Gil e outras palavras por outros compositores e escritores dos brasis. E de outros portugais: as Áfricas portuguesas e o para nós distante Timor Leste.

               Chico reforça a existência da língua portuguesa – criativa a cada dia – e a longínqua democracia idealizada pelos gregos.

               A reboque, esperamos que Chico integre, ainda, a Academia Brasileira de Letras, a ABL, fundada pelo mestre Joaquim Maria Machado de Assis. Certamente, o Bruxo do Cosme Velho não se reviraria no túmulo – como tantas vezes o fez. E que viesse a ser vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Aí, o gado inculto e fascista piraria de vez.

               Amanhã vai ser outro dia? Hoje já é outro dia. E é hora de arregaçar as mangas e, ao som de Construção, e seguir com a reconstrução desta “obra de igreja” que nunca termina.

               Enfim, disparo esta fakenews – Chico na ABL! – e – confesso -:  escrevo essas pobres linhas sem efeito colateral de remédio algum.

               A língua portuguesa e a democracia te agradecem, Francisco!

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