CONTOS ÁRABES

 

CONTOS ÁRABES  

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

              Na página 12 da revista carioca “Vida Nova”, Natal de 1943, um conto de Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, ou simplesmente Malba Tahan (crente de Alá e de seu santo profeta Maomé), “O nariz do Rei Mahendra”, desperta a nossa atenção: o escritor e matemático descreve a vida de um rei árabe que gostaria de ver seu rost do monarca o retratado:

               “Era uma vez um rei, muito estúpido, que tinha um nariz torto, monstruoso, horrível.

               Não percebia, porém, o pobre monarca, a enormidade do seu defeito; julgava-se, ao contrário, um verdadeiro tipo de beleza masculina. Infeliz daquele que zombasse do, ou de leve se referisse, ao narigão disforme do Rei! Punha a língua à mostra, na forca mais próxima.

               Um dia, o Rei Mahendra – já me esquecia de dizer que era este o seu nome – disse ao seu ministro:

                Quero ter aqui, no palácio, um retrato meu, cuja perfeição e fidelidade todos hajam de gabar.

                O ministro mandou chamar os melhores pintores do país. O prêmio, prometido ao mais hábil, era magnífico: um elefante, uma casa em Barahanogore e um livro de Kavira.

               Apresentaram-se três artistas que passavam por habilíssimos: Kedor, pintor da corte; Meryem, de origem árabe, e o jovem Ibu Abi-Hatim, sírio de grande talento.

               Kedor, tomando a tela, fez surgir de sob seus ágeis pincéis, um retrato perfeito do rei; reproduziu o nariz do monarca exatamente como o modelo se lhe mostrava – enorme e monstruoso.

               Quando o rei Mahendra viu a sua figura grotesca miudamente reproduzida no quadro, ficou furioso.

               - Atrevido! Miserável! Fazer de mim semelhante monstrengo!

               E mandou enforcar o pintor.

               Meryen, o segundo artista, ao ver o triste fim do seu companheiro, achou prudente não imitar a escola realista de seu malogrado colega. Isto de pintar os soberanos tal como eles são deu sempre mau resultado. E o árabe retratou o rei fazendo-o perfeito em todos os seus traços fisionômicos. Era aquilo uma verdadeira obra de arte.

               Enfureceu-se ainda mais o monarca ao ver o novo trabalho. A figura feita por Meryem era bela, e nada se parecia com o original, de nariz singularmente feio.

               - O Belzebu desse pintor quer zombar de mim! – gritou colérico. – Este retrato em nada se parece comigo! É, antes, um verdadeiro escárnio!

               E mandou enforcar o infeliz Meryem.

               Chegou, finalmente, a vez do jovem Ibu Abi-Hatim, o pintor sírio.

               - Estou perdido! – disse ele aos seus botões. – Se Pinto o rei de nariz torto vou para a forca; se lhe endireito a cara, sou enforcado.

               - E todos na cidade já lhe lamentavam, por antecipação, o triste fim.

               - No dia em que ele der o último retoque no retrato do rei, vai direitinho levar o pescoço ao baraço!

               Mas – com espanto geral – tal não aconteceu. O monarca ficou encantado com o trabalho do talentoso Abi-Hatim:

               - Este sim! – exclamou – Este é o meu verdadeiro retrato.

               E mandou que sem mais demora se entregasse ao moço pintor a prometida e valiosa recompensa: um elefante, uma casa em Barahanagore e um livro de Kavira.

              Quando Ibu-Hatin, radiante e feliz, deixou o palácio real, viu-se cercado dos amigos  que o cumulavam de perguntas:

               - Então? Como conseguiste o milagre? Pintaste o rei de nariz torto ou sem nariz? Conta-nos lá a proeza.

               - Pois eu vo-la conto – respondeu o inteligente moço. Pintei o rei exatamente como ele é. Tive, porém, a ideia de imaginá-lo a caçar tigres, e a arma que ele levava ao rosto tapava-lhe o nariz grotesco e monstruoso!

               - E ao afastar-se, risonho, acrescentou:

               - Se o aleijão do Rei Mohendra, em vez de ser no nariz, fosse nas pernas, eu o teria pintado a banhar-se num lago com água até a cintura”.

...

              

               Sempre satírico, Nestor Tangerini faz uma brincadeira com seu amigo de “Vida Nova”, Malba Tahan, em crônica publicada, posteriormente, na revista O Espêto (Ano 1º, 2, pág. 8, Rio, 1º de maio de 1947). O humorista usa, portanto, o pseudônimo Malba Taclan. para falar de um comerciante árabe  que plantou seu comércio numa cidade dos rincões do Brasil:

 

“O MATEMÁTICO DE MUQUI

 

                  Apaixonado pela formosa Adur, filha mais velha de Bagdá Kiff, famoso matemático árabe e negociante em Muqui, Jorge Aleff, seu patrício, que lá se achava a negócios, dirigiu-se uma tarde ao Bazar da Estrela, e aí pediu a Kiff a mão de Adur.

               O grande matemático havia, além daquela deidade, muitos outros filhos.

               Exposto por Aleff o fim de sua visita à loja de Kiff, este lhe falou então :

               - Folgo muito em saber que amas minha filha e que ela está disposta a fazer tua felicidade. Mas, responde-me, pela boca de Alá: Onde és empregado e quanto ganhas?

               - Sou o maior acionista do banco principal da praça de Bemposta – atendeu Aleff.

               - Bendito seja Alá, por quem devo, agora, explicar-te a razão de minha pergunta; e que Alá te dê bom senso para compreenderes a boa intenção dela.

               Assim falou o famoso matemático e negociante em Muqui, passando logo a explicar:

               - Em todas as ciências matemáticas, na aritmética, álgebra, na geometria, 1 + 1 fazem dois; menos no casamento, onde 1 + 1 fazem muitos.

               E demonstrando:

               Eu e minha esposa, por exemplo, fizemos 15”.

 

               Ao que tudo indica, o município de Muqui está localizado no interior do Estado do Espírito Santo. Consta que é uma bela cidade, repleta de casarios históricos. Teria Nestor Tangerini passado um dia por lá? Ou teve algum amigo muquiense, que lhe contou a referida história?

 

               Quanto a Bemposta, trata-se de um distrito vinculado ao município Três Rios que está localizado no Estado Rio de Janeiro.

               Pelo visto, o jovem pretendente árabe deve ter feito uma longa viagem pela Mata Atlântica, absorvendo o seu frescor, até Muqui, onde morava o provável futuro sogro matemático. Não visualizou, portanto, as areias quentes do deserto e seus oásis.

               Sobre os escritores:

               Malba Tahan (Júlio César de Melo e Sousa) nasceu no Rio de Janeiro a 6.5.1895; na mesma cidade, faleceu a 18.6.1974.

               Nestor Tambourindeguy Tangerini nasceu em Piracicaba, SP, a 23.7.1895; faleceu na cidade do Rio de Janeiro a 30.1.1966.

               Ambos eram professores, traficantes de conhecimentos. O primeiro, de Matemática; o segundo, de português.

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