DE BORGES A CAMÕES

 

HOMENAGEM DE BORGES A CAMÕES

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

                  Camões, com seus sonetos líricos ou com sua epopeia “Os Lusíadas”,  inspirou, de maneira significativa,  uma infinidade de escritores e poetas do mundo lusófono, como Bocage, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Miguel Torga e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

                    Mas saber que Jorge Luís Borges, símbolo maior da literatura argentina, leu Camões, um dia, nos faz crer, que, com seu poema épico, o poeta maior da língua portuguesa atravessou, com o seu rude idioma, as fronteiras da pátria lusitana – sem precisar das  armas e dos barões assinalados.

                    Publicado em “Obras Completas: 1923-1972”; El Hacedor. Tomo I. 14. ed. Buenos Aires: Emecé, 1984. p. 832, o poema  “A Luis de Camoens”  condensa todo o sentimento do poeta português, principal formador de nossa língua:

 

“A Luis de Camoens

 

Sin lástima y sin ira el tiempo mella

Las heroicas espadas. Pobre y triste

A tu patria nostálgica volviste,

Oh capitán, para morir en ella

Y con ella. En el mágico desierto

La flor de Portugal se había perdido

Y el áspero español, antes vencido,

Amenazaba su costado abierto.

Quiero saber si aquende la ribera

Última comprendiste humildemente

Que todo lo perdido, el Occidente

Y el Oriente, el acero y la bandera,

Perduraría (ajeno a toda humana

Mutación) en tu Eneida lusitana”.

 

 

               Do blog do Castorp, retirei o poema em espanhol  e sua tradução, feita, talvez pelo sr. A. Rodrigues:

 

“A Luís de Camões

 

Sem lástima e sem ira o tempo desgasta

As heroicas espadas. Pobre e triste

À tua pátria nostálgica retornaste,

Oh capitão, para morrer nela

E com ela. No mágico deserto

A flor de Portugal se havia perdido

E o áspero espanhol, antes vencido,

Ameaçava o seu flanco aberto.

Quero saber se aquém da derradeira

Margem humildemente atinaste

Que todas as perdas, o Ocidente

E o Oriente, o gládio e a bandeira,

Perdurariam (alheios a toda mudança

Humana) em tua Eneida lusitana”.

 

               Borges, conhecedor profundo da literatura inglesa, tinha, também, domínio vasto de toda a literatura universal, nomeadamente a literatura greco-latina e escandinava, embora dominasse muito pouco a literatura de língua portuguesa. Jamais leu Machado de Assis, conhecia um único poema brasileiro, “Canção do Exílio”, do romântico Gonçalves Dias, que chegou aos seus ouvidos através de uma música, e era leitor entusiasmado do realista Eça de Queirós.

 

               Amante da literatura e dos livros, Borges, com maestria,  põe, em sua poesia, a obra máxima de Camões ao lado do épico “Eneida”, do poeta latino Virgílio, poeta universal – citado pelo vate português em “Os Lusíadas”.

               Não, Borges, Camões não está morto. Está vivo. Renasceu em cada poeta que escreve em português, “nosso doloroso idioma”, como poetizou Bilac.

              Se Dom Sebastião não voltar, para construir o 5º Império, que importa! Saberemos recriar a nossa pátria portuguesa, hoje repartida e distribuída em três continentes: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste.

               Escrevemos em português e fazemos parte da literatura universal. Outros Saramagos também virão.

 

-x-

 

Dedico este texto aos portugueses José Pinto da Costa, Manoel Pêra, Edgar Rodrigues, Manuel Vieira, Francisco António dos Santos, Diamantino Augusto e Alexandre O´Neill.

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