EM NITERÓI

 

A CASA DO SR. ELIAS 

 

Nelson Marzullo  Tangerini

 

                   Na década de 1920, auge dos poetas do Café Paris, de Niterói, o  comerciante libanês sr. Elias, proprietário da casa A Garota, armarinho especializado em fazendas, panos de cama e mesa e roupas pede a seu amigo Tangerini que escreva  um soneto-propaganda para a sua lojinha.

                   Assim, de chofre, o que escrever? Galhofeiro e espirituoso – e sempre inspirado -, o poeta e humorista Nestor Tangerini faz uma paródia do belo soneto Visita à Casa Paterna, do poeta Luís Guimarães Júnior [foto], que publicamos nesta crônica:

 

“Como a ave que volta ao ninho antigo,

Depois de um longo e tenebroso inverno,

Eu quis também rever o lar paterno,

O meu primeiro e virginal abrigo:

 

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,

Os fantasmas talvez do amor materno,

Tomou-me as mãos, - olhou-me, grave e terno,

E passo a passo, caminhou comigo.

 

Era esta a sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)

Em que da luz noturna à claridade,

Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

 

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?

Uma ilusão gemia em cada canto,

Chorava em cada canto uma saudade.”

 

 

                      E o soneto paródia de Tangerini, A Garota, que faz hoje parte do seu livro HUMORADAS... – SONETOS SATÍRICOS, enfim é escrito:

 

“Como a ave que volta ao ninho antigo,

Depois de reduzido à bancarrota,

Eu também quis rever, hoje, A Garota,

A princesa nos preços e no artigo.

 

Entrei. E o “seu” Elias, meu amigo,

Sem de ressentimento uma só gota,

Tomou-me as mãos, numa expressão marota,

E passo a passo caminhou comigo.

 

Era esta a casa... (Oh, se me lembro e quanto!),

Em que, por alguns níqueis, quase nada,

Eu conseguira... Quem resiste a tanto?

 

Fui gastando o que tinha, ao ver, armada,

Uma boa fazenda em cada canto,

E em cada qual um preço camarada”.

 

                   Não temos qualquer notícia da publicação deste soneto em jornais da ex-capital fluminense. É possível que os versos de A Garota tenham sido publicados no jornal carnavalesco niteroiense O Almofadinha, vitrine dos sonetos-propaganda, de propriedade de Luiz Leitão, grande poeta satírico niteroiense e amigo de Tangerini.

                   Muitos exemplares do jornal de Lili, como se sabe, desapareceram para sempre e é impossível sabermos algo a respeito.

                  Este soneto, por exemplo, encontrei-o em meio a uma papelada amarelecida pelo tempo, com anotações do autor.

                  Para torná-lo parte da História de Niterói, publiquei-o no jornal AAC/INFORMATIVO, Órgão Informativo da Associação dos Aposentados dos Correios, Literatura, p. 4, Ano IX, nO. 23, Brasília, DF, dezembro de 2002, e na VII Coletânea Komedi, p. 237, Editora Komedi, Campinas, SP, 2003.

 

                  Um dos dez membros eleitos para se completar o quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde criou a Cadeira no. 31, que tem como patrono o poeta Pedro Luís, Luís Caetano Guimarães Jr, diplomata, poeta, romancista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de fevereiro de 1845, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 20 de maio de 1898.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O PROFESSOR E O POETA

SIMBOLISMO E PARNASIANISMO

O PROFESSOR E O POETA II