ENTREVISTA COM CASIMIRO DE ABREU
ENTREVISTA
COM CASIMIRO DE ABREU
Nelson
Marzullo Tangerini
Aqui vão
trechos de um programa de televisão em que Casimiro de Abreu é entrevistado 157
anos após sua morte. Assim como a entrevista que Rubem Braga fez com Machado de
Assis. A entrevista aconteceu na casa onde o poeta viveu, em Barra de São João,
no litoral fluminense. Passamos boas horas a conversar sobre sua vida, seus
amores, seu amor pela terra natal. Suas respostas são frases que ele mesmo
escreveu em versos.
Repórter: - O que pensas sobre a primavera?
Casimiro: - “A primavera é a estação dos risos, / Deus fita o
mundo com celeste afago / Da brisa louca aos amorosos frisos”.
- Poeta, nasceste em Barra de São João, hoje um distrito do
Município de Casimiro de Abreu, que adotou teu nome? Como foi tua infância na
terra natal?
- “Livre filho das montanhas / Eu ia bem satisfeito, / Da
camisa aberto o peito, / - Pés descalços, braços nus - / Correndo pelas campinas
/ À roda das cachoeiras, / Atrás das asas ligeiras / Das borboletas azuis!”
- E sobre Portugal, onde estiveste?
- “Não amo a terra do exílio / [...] Distante do solo amado –
Desterrado – A vida não é feliz. / [...] / O país estrangeiro mais belezas do
que a pátria não tem”.
- E como foi viver longe do Brasil?
- “Longe da pátria, sob um céu diverso / Onde o sol como aqui
tanto não arde, / Chorei saudades do meu lar querido. // Meu Deus! Eu chorei
tanto lá no exílio! / Tanta dor me corou a voz sentida”.
- Achas tão bela então a pátria onde nasceste?
“ Oh! Que céu, que
terra aquela! / Rica e bela / Como o céu de claro anil! / Que selva. Que luz,
que galas! / [...] / – É uma terra / Alcatifada de flores / Onde a brisa fala
amores / Nas belas tardes de abril”.
- É mesmo tão belo o Brasil?
- “Que nem as sonha o poeta / E nem as canta um mortal? /
[...] / É um país majestoso / Essa terra de Tupã, desde o Amazonas ao Pará / -
Tem serranias gigantes / E tem bosques verdejantes / Que repetem incessantes /
Os cantares do sabiá”.
- E como foi a viagem para Portugal?
- “Foi um dia de novembro: / deixava a terra natal, / a minha
pátria tão cara, / O meu lindo Guanabara / em busca de Portugal. / [...] Na
hora da despedida / Tão cruel e tão sentida / P´ra quem sai do lar fagueiro; /
Duma lágrima orvalhada, / Esta rosa foi-me dada / ao som de um beijo primeiro”.
- Então sentiste muitas saudades do Brasil?
- “Saudades – dos meus amores, / Saudades da minha terra”.
- O que pensavas, então, naquele momento?
- “Se brasileiro eu nasci, / Brasileiro hei de morrer / que
um filho daquelas matas / Ama o céu que o viu nascer”.
- Falaste de amores. Amaste uma morena. O que disseste para
ela?
- “[...] Eu disse então: - Moreninha, / Se um dia tu fores
minha, Que amor, que amor não terás! E dou-te noites de rosas / Cantando
canções formosas / Ao som dos meus ternos ais”.
- Gostas então das morenas, então?
- “Mulher mais linda não há”.
- Mas amaste também uma clara...
- “A morena é predileta, / Mas a clara é do poeta. / [...] /
A clara é dos anjos/ [...] / Mulher morena é ardente: / Prende o amante demente
/ Nos fios do seu cabelo”.
- Fala-nos sobre Rosa...
- “Era um anjo! Foi p´ro céu / envolta em místico véu / Nas
asas dum querubim; Já dorme profundo, E despediu-se do mundo / Pensando talvez
em mim”.
- E sobre aquela deidade no jardim?
- “Ela estava sentada em meus joelhos / E brincava comigo – o
anjo louro, / E passando as mãozinhas no meu rosto / sacudia rindo os seus
cabelos d´oiro”.
- Que pensas sobre as paixões?
- “Amar não faz mal; / As almas [...] sentem paixão como a
minha”.
- E agora, o que pensarão de ti, poeta?
- “Depois o mundo diz: - Que libertino!”
- O que sentes quando falas da tua infância?
- “Eu me remoço recordando a infância, / E tanto a vida me
palpita agora”.
- Tens saudade da infância?
- “Oh! Que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da
minha infância querida / Que os anos não trazem mais! / Que amor, que sonhos,
que flores, / Naquelas tardes fagueiras / À sombra das bananeiras, / debaixo
dos laranjais!”
- Fala-nos de tua casa, aquela bela casa, em Barra de São
João...
- “A casa? ... as salas, estes móveis... tudo, / o crucifixo
pendurado ao muro... O quarto do oratório... a sala grande / Onde eu temia
penetrar no escuro!/ [...] /ó mocidade! bem te sinto e vejo! / De amor a vida
me transborda o peito”.
- E sobre tua mãe...
- “Eu guardo no peito a imagem querida / do mais verdadeiro,
do mais santo amor: / Minha mãe”.
- Uma vez, com tua mãe, admiravas o mar de Barra de São
João...
- “Eu disse a minha mãe nesse momento: / “Que dura orquestra!
/ Que furor insano! / “Que pode haver maior do que o oceano. / “Ou que seja
mais forte do que o vento?!”
E ela...
“Minha mãe a sorrir olhou p´r´os céus / E respondeu: - “Um
Ser que nós não vemos / “É maior do que o mar que nós temos, / “Mais forte que
o tufão! meu filho, é – Deus”.
- O que pensas sobre a vida?
- “Viver é amar!”
Preferes a noite ou o dia?
“A noite é sublime / - tem longos queixumes, / Mistérios
profundos que eu mesmo não sei. / [...] O céu tem estrelas”.
Como te definirias?
“Sou como a pomba e como as vozes dela. / é triste o meu
cantar”.
Foste um grande poeta...
“Pobre poeta! Na manhã da vida / Nem flores tenho, / nem
prazer também! / - rosto mendigo que não tem guarida - / Tímido espreito quando
a noite vem! / [...] a minha vida era areal despido / De relva e flor e na
estação louçã! / [...] Eu era a flor do escalvado galho / Que a tempestade no
passar quebrou”.
O que pensas da glória?
“O mundo é uma mentira, / A glória – fumo, / A morte – um
beijo, e esta vida um sonho / Pesado ou doce, que s´esvai no campo!”
E sobre o homem, o que pensas?
“- O homem nasce, cresce, alegre e crente, / Entra no mundo
c´o sorrir nos lábios, / traz os perfumes que lhe dera o berço, / Veste-se belo
d´ilusões douradas, / Canta, suspira, crê, sente esperanças, / E um dia o
vendaval do desengano / varre-lhe as flores do jardim da vida / E nu das vestes
que lhe dera o berço / Treme de frio ao vento do infortúnio”.
Que pensas sobre a velhice?
“A velhice tem gemidos, / - A dor das visões pesada. / A
mocidade – queixumes / Só a infância tem risadas! [...] A velhice... [...]
Murcha o viço do verdor dos anos, / Dorme-se moço e despertamos velho / Sem
fogo para o amor”.
Então a vida é triste...
“A vida é triste - / Nem vale apena dizê-la”.
E o amor?
“O amor é o deserto, a veiga, o prado”.
Como defines a poesia?
“Os trêmulos lumes, / Da veiga os perfumes, / Da fronte os
queixumes, / Dos prados a flor, / Do mar a ardentia, / Da noite a harmonia, /
Tudo isso é – poesia! Tudo isso é – amor!”
Tens medo do esquecimento?
“Esquecimento! Mortalha para as dores - / Aqui na Terra é a
embriaguez do gozo”.
Como te sentias depois que os olhos serraste?
“Poeta, dormia pálido / No meu sepulcro, bem só”.
E como te sentiste após o passamento?
“Um anjo veio e deu vida / Ao peito de amores nu: / Minh’
alma agora remida / Adora o anjo”.
Se pudesses voltar a viver aqueles anos, o que farias?
“Quero sentar-me à beira do riacho / das tardes ao cair, / E
sozinho cismando no crepúsculo / os sonhos do porvir”.
O que fazes nas horas em que te recolhes ao leito?
“Nessas horas de silêncio, / De tristeza e de amor, / Eu
gosto de ouvir de longe, / Cheio de mágoa e de dor, / O sino do campanário /
Que fala tão solitário / Com esse som mortuário / Que nos enche de pavor”.
E assim
terminamos a nossa primeira entrevista com um poeta fluminense, que teve de
recolher-se a seu leito.
Daremos
prosseguimento a nosso trabalho e entrevistaremos outros grandes escritores de
nossa literatura, que já não estão entre nós.
Contamos com
a vossa audiência.
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