GRANDE OTELO

 

GRANDE OTELO E TANGERINI

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

                       Fui, certa vez, com um amigo, ao Teatro Fênix, da Rede Globo de Televisão, para assistir à gravação de um programa da emissora.  Creio que isto tenha ocorrido nos Anos 1980.

                       Ali, pude conversar com o músico e cantor Cartier, da dupla Burnier & Cartier, com  a atriz Ruth de Souza,  que foi amiga de minha avó, a atriz Antônia Marzullo, e Grande Otelo [Sebatião Bernardes de Souza Prata], nascido em Uberlândia, MG, a 18 de outubro de 1915. Otelo, que foi um dos  grandes de nosso teatro,  trabalhou com Antônia Marzullo e Sarita Montiel no filme Samba, uma produção espanhola, e  em três peças de meu pai, Nestor Tangerini.

                       Sentamos para conversar e Otelo foi falando de meu pai e das peças em que trabalhou: No tabuleiro da baiana, Magnífica e Gol, encenadas pelo empresário teatral Jardel Jércolis, pai de Jardel Filho.  Estreitamos nossa amizade. Algumas vezes nos encontramos para conversar. Outras vezes conversamos por  telefone.

                       Várias vezes Otelo me telefonou pedindo a letra de “Por mil e quinhentos réis”, samba de Aldo Cabral [Antônio Guimarães Cabral] e Nestor Tangerini.  Ele já havia cantado esta música em uma peça de meu pai.

                       “- Não tenho a letra desta música.” – disse-lhe. “Vou tentar conseguir uma cópia com Aldo Cabral”. A tal letra dizia mais ou menos assim: “Foi por mil e quinhentos réis que o Brasil foi descoberto. Veio um senhor lusitano...”

                      Telefonei para Aldo Cabral e falei-lhe sobre as intenções de Otelo, que queria incluir esta música em um novo espetáculo seu.  Aldo Cabral tinha, mas não queria ceder. Havia brigado, um dia, com o ator Grande Otelo. E Cabral era assim: quando brigava com alguém, jamais voltava atrás.

                     “- Em se tratando de Grande Otelo, não autorizo  a liberação desta letra para o referido espetáculo” – disse o compositor de Mensagem.

                     Certa vez, Otelo me telefonou para assistir a uma peça em que trabalhava, na Cinelândia, centro do Rio. No final, caminhei com o ator até a Lapa, onde tomaria um táxi para sua casa, em Copacabana.  Durante alguns minutos, pude caminhar a seu lado na rua, enquanto algumas pessoas nos olhavam atentamente.

                     O tempo passou. Otelo, que também era compositor e poeta, lançou um livro de poesias suas. Não pude ir à noite de autógrafos porque tinha uma prova na faculdade e fiquei muito chateado. Telefonei-lhe e disse que havia comprado seu livro e que passaria em sua casa para que ele mo autografasse.  Otelo estava triste. Havia perdido seu filho Osvaldo e disse-me que estava de viagem para Paris, França, onde seria homenageado. E que, na volta, marcaríamos um encontro e ele autografaria  o livro para mim.

                    “- Meus filhos não querem que eu  viaje. Porque não ando bem de saúde. Porque estou abalado emocionalmente.” – disse o ator.

                    Mas o teimoso Otelo viajou para a França, onde faleceu, a 26 de novembro de 1993, vítima, talvez, de um AVC.  Restou-me, porém, despedir-me de Otelo no saguão do Edifício Gustavo Capanema, centro do Rio, onde encontrei-me com seu filho Pratinha e o escritor [Acadêmico] Josué Montello, entre outros atores e escritores.

                    Otelo queria me entrevistar em seu programa “Quando conheci teu pai”, da TVE. Infelizmente, Sebastião nos deixou e não pudemos dar um grande depoimento para a História do Teatro Brasileiro.

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