HELENO DE FREITAS
A GILDA E O
GILDA
Nelson
Marzullo Tangerini
Meu tio,
Maurício Marzullo, advogado, poeta e escritor,
foi um cara de sorte. Se não viajou com duas estrelas no mesmo ônibus,
criou, em “Maior que a estrela”, crônica publicada na revista O Espeto, Nº 6,
p. 16, Rio, dezembro de 1947, um encontro fictício entre dois grandes nomes do
noticiário nacional: Ela, uma atriz e produtora de filmes; ele, jogador de
futebol.
Aqui
reproduzimos a crônica escrita por MM, um dos pseudônimos do Dr. Marzullo:
“O
‘gostosão’ corria, meio lotado, pelo asfalto da Beira-Mar, quando, próximo ao
Flamengo, um magote de gente o lotou por completo.
Já
novamente em marcha acelerada, espadanando com vigor a água da chuva que caía,
alguém, lá no fundo, junto à ‘encubadeira’, fazendo acrobacias para manter-se
em equilíbrio, pediu ao trocador que lhe trocasse vinte Cruzeiros. Era a
aplaudida Gilda de Abreu, toda enrolada no seu casaco de peles.
O trocador, porém, cingindo-se – parece –
ao troco máximo permitido, de Cr$ 10,00, alegou, com rompância, que se
encontrava sem trocados.
A atriz,
que também o é de cinema, ficou aturdida, sem saber o que fazer para pagar o
ônibus, no momento de apear.
Foi
quando um cavalheiro, que a seu lado viajava, também de pé, prontificou-se a
trocar-lhe por duas de dez a sua nota de vinte cruzeiros, num verdadeiro ‘dribling’
à indelicadeza do trocador. Era o ‘footballer’ Heleno.
A ‘estrela’ agradeceu com um
sorriso à amabilidade do craque e investiu para o trocador com uma nota de dez
Cruzeiros em riste, já aí dentro do regulamento.
E,
enquanto o troco lhe ia sendo feito, o trocador ouviu algumas verdades:
- Bem
sei que o troco máximo é de dez Cruzeiros. Mas o senhor, com um pouquinho de
boa vontade, poderia ter-me atendido!
O
trocador deu de ombros e continuou o seu serviço.
A
‘estrela’, então, virando-se para o craque, disse:
- Ando
muito pesada! No estúdio, perdi cerca de duzentos metros de filme. Ao entrar no
ônibus, pisaram-me os pés, e, agora, esse desaforado!
Ao que
Heleno respondeu, cerimoniosamente:
- Aquiete-se,
minha senhora! Pior aconteceu em Bariri”.
A
“estrela” Gilda de Abreu, esposa do tenor brasileiro Vicente Celestino, dirigiu
inúmeros filmes brasileiros; um deles, “O ébrio”, no qual trabalhou a atriz
Antônia Marzullo, mãe de Maurício, em que contracena com Vicente, Rodolfo
Arena, Walter Dávila, Manuel Vieira, entre outros.
Gilda
nasceu a 23 de setembro de 1904 em Paris, França, e faleceu no Rio de Janeiro,
RJ, a 4 de junho de 1979.
Além de
cineasta, foi atriz, cantora, escritora e radialista. Escreveu o livro “Minha
vida com Vicente Celestino”.
O
centroavante Heleno de Freitas, o “Gilda”, teve um fim trágico; a tragédia,
aliás, foi apresentada no filme sobre Heleno. Lançado em 30 de março de 2012, o
referido filme, dirigido por José Henrique Fonseca, a partir do livro “Nunca
houve um homem como Heleno”, de Marcos Eduardo Neves, foi produzido pela
Companhia Goritzia Filmes. Esse belíssimo trabalho, que recebeu, ainda, a
trilha musical composta por Berna Cepas teve, em seu elenco, grandes estrelas como
Rodrigo Santoro (no papel de Heleno), Aline Moraes, Angie Cepada, Othon Bastos,
Herson Capri e Orã Figueiredo.
Seu envolvimento
com bebida e drogas conduziu o atleta à completa destruição de sua vida e de
sua gloriosa carreira, levando-o, inclusive, à loucura. Foi um grande e importante jogador do Botafogo, o “Clube da
Estrela Solitária”. Por sua elegância em
campo, foi apelido de “Gilda”, filme com
roteiro de Marion Personnet e Jo Eisinger, baseado em uma história de E. A.
Ellington, e estrelado por Rita Hayworth, Glenn Ford, George MacReady, Joseph
Calleia, Steve Geray, Gerald Mohr e Joseph Sawyer.
Considerado o primeiro “craque problema” do futebol brasileiro, Heleno
era um homem de boa aparência, um galã para sua época; porém, era catimbeiro,
boêmio, boa vida, irritadiço, uma pessoa quase intratável.
O “Príncipe
Maldito”, como também era chamado, nasceu a 12 de fevereiro de 1920, em São
João Nepomuceno, MG, e faleceu, minado pela loucura, a 8 de novembro de 1959,
em Barbacena, MG.
O pior deve ter mesmo acontecido na Rua
Bariri, onde se localiza o campo do Olaria Futebol Clube, também chamado de
“alçapão”, em virtude de ter um espaço muito pequeno para uma partida de
futebol. Pelo que diz Heleno, em seu diálogo com a ”estrela”, registrado por
Maurício Marzullo, o “sarrafo” deve ter comido solto por parte de algum
zagueiro desonesto, na esperança de deter o perigoso jogador alvinegro.
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