LIVRE COMO UM PÁSSARO

 

PRESO COMO UM PÁSSARO


Nelson Marzullo  Tangerini

 

                    O bicho-homem ficou preso no elevador.

                  O ar começava a faltar. O calor começava a invadir aquele caixote.

                    Desesperado, ele tentou, de todas as maneiras, sair daquele cubículo.

                    Apertou o botão de alarme. Gritou. Bateu com as mãos e os pés na porta.

                    Deve ser desagradável ficar enquadrado e suspenso no ar, entre o 6o. e o 7o. andares.

                    Diante de tamanha barulheira, toda a população daquele prédio do Cocotá, na Ilha do Governador, subúrbio do Rio de Janeiro, correu para o local, tentando retirar o homenzinho daquela prisão.

                    O elevador resolvera parar e não se mexia um tiquinho  - nem para cima, nem para baixo.

                    Não demorou muito aquela agonia. A sua cela foi descendo lentamente, vindo a parar no andar de baixo. Para o prisioneiro, aqueles poucos minutos de sufoco eram uma eternidade. Achava mesmo que não teria álibi divino e morreria ali.

                    Diante de tal situação, estava apavorado, espavorido, suado, borrando e urinando nas calças. Afinal, quem não se sente pequeno diante da morte – pelo menos numa situação humilhante como aquela?

                    Numa das mãos, o cretino – e egoísta - carregava um gaiola. Dentro dela, um pássaro irônico e canoro cantava alegremente – talvez o gozador, artista nato, “por natureza”, compusesse uma sátira para aquele momento hilário – para ele – e aparentemente fatídico – para seu algoz. Nada mais justo; afinal de contas, todos os seres têm direito à liberdade.

                    Léa, moradora do 302 - e “ecologicamente correta” - , divertiu-se a valer com aquela situação. O homem virou uma fera e os moradores tentaram censurá-la.

                    Entre risos, minha amiga saiu-se com esta:

                    Agora ele sentiu na pele o que vive um pássaro preso dentro de uma gaiola, condenado a prisão perpétua, sem saber que crime cometeu.


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O texto acima foi elaborada a partir de um relato verídico de Léa Dantas Vasconcelos, que me pediu escrevesse uma crônica. O título, PRESO COMO UM PÁSSARO, faz alusão à canção FREE AS A BIRD, de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr [ The Beatles], gravada na caixa Anthology 1.

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Nelson  Tangerini é contra a caça, as touradas, a Farra do Boi, os rodeios, as experiências com animais, animais presos em gaiolas e em zoológicos e a destruição de nossas florestas. É também um defensor da causa indígena.

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