O DENTISTA E O MONSTRO
O DENTISTA E
O MONSTRO
Nelson
Marzullo Tangerini
Trago aqui dois textos humorísticos:
um, de Lourival Reis, poeta, cronista, humorista e compositor, mais conhecido
como Professô Bacurau, e, o outro, de Nestor Tangerini.
Já escrevi sobre Bacurau, certa
vez, quando apresentei-lhes dois poemas escritos em baianês, bem à moda
modernista.
Folheando novamente a revista de
humor e sátira O Espeto, dirigida pelos dois humoristas, eis que encontro uma
croniqueta-piada formidável, publicada em sua coluna “Arraiá do Pau Fincado, p.
2, Rio, 1º de maio de 1947 :
“NO DESTISTA
O Chico Beiço Grosso estava como
uma dor de dente horrorosa! A cara inchou, coitado! O Chico gemia o dia inteirinho,
até que resolveu ir ao dentista, escolhendo logo o Seu Furtunato, velho e
bastante míope.
Seu Furtunato botou o Chico na
cadeira, meteu o boticão na boca do Chico, deu dois solavancos e puxou...
- Eis aqui o seu dente molar;
vê-se, perfeitamente, que é de ouro, e ouro muito bom.
O Chico olhou para o dentista,
botou a mão na boca e disse:
- Não, doutor! ... O senhor me
arrancou o botão do colarinho...”
Menos sorte teve o personagem de
Nestor Tangerini, autor do pequeno esquete, que ora destacamos. Segundo Aldo
Cabral, compositor, poeta e teatrólogo, o menor esquete já encenado na história do Teatro de Revista
brasileiro. .
Cabral, “Amigo fiel”, descrevesse melhor essa
história em seu texto, “Expirou Nestor Tangerini”, publicado na revista social
da UBC, União Brasileira de Compositores, logo após a morte do amigo, em 30 de
janeiro de 1966:
“É de Nestor Tangerini o mais
rápido “Sketch” que se conheceu, e que figurou em sua revista “Estupenda!”,
levada a cena no Teatro Carlos Gomes desta cidade, em 1937, explorada, então,
pela Cia. Jardel Jércolis. A cena passa-se na sala de operações de um hospital,
onde se vê o paciente sobre a mesa, ainda
sob à ação da anestesia, com uma das pernas amputadas à altura do
joelho. Ao lado do paciente, o médico que acabara de fazer-lhe a amputação da
perna, e, à cabeça do paciente veem-se o médico-auxiliar e a enfermeira. Após
um instante, o médico-auxiliar diz, baixo, à enfermeira: ‘Acho que o doutor
enlouqueceu’. E o médico, virando-se rápido, para ambos, grita-lhes, irritado: ‘Loucos
estão vocês! Por que não me disseram que o caso era de apendicite?’ (Pano)”
Lourival Reis, Nestor Tangerini
e Aldo Cabral são figuras de grande
valor na história do teatro, da literatura e da música, embora estejam esquecidos
e soterrados por uma avalanche de mediocridades que se múltipla e tem destaque
fácil na mídia atual.
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