PORTO, PORTUGAL
ACONTECEU
EM PORTUGAL:
“-
PARA ONDE VAIS, SEU PÊRA?”
Nelson
Marzullo Tangerini
Portugal, Abril / Maio de
2002.
Depois de ter passado
alguns dias em Lisboa, eis que viajo para o Porto, na companhia do escritor
português Edgar Rodrigues.
Estava, enfim, perto da terra
de meu querido tio Manoel Pêra, natural de Oliveira d´Azimeis, Aveiro.
Pêra, casado com minha
tia Dinorah Marzullo, irmã de Dinah Marzullo Tangerini, minha mãe, o grande
ator era pai de Marília e Sandra Pêra. Volta e meia a imprensa compromete minha
tia, dizendo que Marília e Sandra eram filhas de Abel Pêra, irmão de Manoel.
Abel, igualmente ator de teatro e cinema, foi também radialista e humorista.
Mas não deixou descendentes.
No dia 20 de maio de
2002, após chegar ao Porto, fui dar um giro pela cidade. Caminhei “ao pé” do
Douro e fotografei a casa onde nasceu e morou o poeta luso-brasileiro [e
Inconfidente] Tomás António Gonzaga, autor de Cartas Chilenas e Marília de
Dirceu.
Maravilhado com a cidade,
com seus barcos, seu velho casario, com ponte de ferro que liga o Porto a Vila
Nova de Gaia [sobre o Rio Douro], esqueci-me completamente do jantar com meu
amigo escritor numa cantina localizada numa ruela do centro.
Um português, ao me ver
fotografando, parou e interpelou-me no meio do caminho. Perguntou-me de onde eu
era, o que fazia. Disse que era um escritor brasileiro e que visitava Portugal pela
primeira vez. Quis demonstrar erudição e fiquei ali a falar de Camões, Eça,
Pessoa, Florbela, Sofia e Alexandre O´Neill [que conheci pessoalmente]. Parei
para falar com ele e ficamos ali alguns minutos a falar de nossas terras, de
nossos escritores, de nossos artistas, de política e dos problemas de nossos
países. Falei-lhe que era sobrinho do ator português Manoel Pêra, um dos
maiores atores do teatro brasileiro. Orgulhoso, o jovem português sabia,
perfeitamente, que Manoel Soares Pêra era natural de Aveiro.
Admirando a beleza da
velha cidade, fui caminhando, até entrar num café para tomar uma Coca-Cola
portuguesa.
A dona do
estabelecimento, percebendo o meu sotaque, perguntou-me se eu era brasileiro e
o que fazia no Brasil - e em Portugal. Parei ali e fiquei alguns minutos a
falar de minha vida, de minha família e do Brasil.
- Engraçado, um dia
desses apareceu aqui uma senhora brasileira. Parou também aqui para beber uma
Coca-Cola. Esqueci seu nome. Sei apenas que ela é uma atriz brasileira e que o
pai dela nasceu em Portugal. Vi-a algumas vezes na televisão, nas novelas
brasileiras.
Perguntei-lhe:
- Marília Pêra?
- Sim, Marília Pêra.
- Sou primo dela. E Manuel Pêra era meu tio. Ele era
casado com minha tia,
Dinorah,
irmã de minha mãe, Dinah. Somos uma família com o teatro no sangue.
A dona do café, “ao pé do
Douro”, ficou impressionada com coincidência – e eu também – e, de uma hora
para outra, passei a ser chamado de Seu Pêra por muitos cidadãos do Porto. Por
onde andasse, por onde passasse, onde eu entrasse, as pessoas me chamavam de
Seu Pêra. Os motoristas de táxi só me chamavam de Seu Pêra:
“- Para onde vais, Seu
Pêra?”
Voltei para o hotel e
não encontrei meu amigo [com 82 anos na época], que já havia ido para a
cantina, onde me esperava furioso da vida, para dizer-me poucas e boas. Tentei
explicar-lhe o ocorrido, mas ele, cabeça dura, não me entendia. Jamais me
entendeu. No hotel Pão de Açúcar, ainda me disse um monte de desaforos. E
brigamos feio – para sempre. Infelizmente, pois o admirava (e ainda o admiro) como pesquisador
e escritor do movimento libertário.
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