RIO-NITERÓI

 

POESIAS ENTRE RIO E NITERÓI


Nelson Marzullo Tangerini

                     A poética e popular travessia de barcas entre Niterói, ex-capital fluminense, e Rio de Janeiro, ex-Capital Federal, sempre movimentada, inspirou inúmeros poetas. Nestor Tangerini, da Roda do Café Paris, e Alberto Valle, da Roda do Calçadão [do Calçadão da Cultura], escreveram sonetos memoráveis, que, certamente, ficarão na História de nosso Estado do Rio de Janeiro.

                     Publicado no jornal niteroiense Folha do Comércio, em 1929, o soneto Vanitas, de Nestor Tangerini, relata, de maneira bem um humorada, o momento em que duas deidades se assustam e se apavoram com a agitação das águas da Baía de Guanabara:

 

“Mar agitado. A barca, essa jogava

como se joga em qualquer clube chique.

De encantadora formosura eslava,

duas deidades vejo em tremelique...

 

Delas me encanto. E tenho o peito em lava,

quando uma, o coração em tique-tique,

ao marinheiro que as acomodava,

interroga, anunciando ir ter chilique:

 

- Se a barca for ao fundo, a quem primeiro

é que salva? – A mais feia, com certeza...

responde-lhe, de troça, o marinheiro.

 

E a menos linda, lindamente aflita:

- Minha Nossa Senhora da Beleza,

fazei que ele prefira a mais bonita!”

 

                      Nestor Tangerini reescreveria seu soneto Vanitas, modificando-o para “Delas me encanto, e tenho o peito em lava” [1o. verso, 2o. quarteto] e “fazei com que ele salve a mais bonita” [último verso, 2o. terceto], sem alterar seu conteúdo e sem descontextualizá-lo.

 

                       No dia 4 de agosto de 1943, 14 anos mais tarde, portanto, o poeta e Acadêmico niteroiense Alberto Valle, membro da Academia Fluminense de Letras, mais saudoso, escreve um belo soneto, La Belle Époque, revitalizando a História da travessia entre as duas cidades:

 

“Da barca da Cantareira

saudade sempre haverá

de passageiro e cargueira

movida a roda de pá.

 

Tinha a “Sétima”, a “Terceira”,

“Icaraí”, “Gragoatá”,

“Quinta”, “Imbuí” e a primeira

com hélice, a “Paquetá”.

 

Senhoras enchapeladas

só viajavam sentadas

e usavam cordões e anéis...

 

E todos se conheciam

e as passagens não subiam...

Eram quatrocentos réis!...”

 

                    A barca é parte da História do  povo fluminense. Desde a barca movida a roda de pá até a barca com hélice. Os dois poetas, com maestria, retratam duas épocas distintas, com moças “enchapeladas” e cavalheiros dispostos a salvarem a moça mais bonita.

                       Que outros poetas e cronistas continuem trazendo para a literatura fluminense, à sua maneira, com seu estilo de época, o retrato vivo de um povo que vive da travessia entre as duas cidades para levar para casa o pão de cada dia.

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