TRIVIAL SIMPLES

 

UMA HISTÓRIA PESSOAL

- OU NO MEIO DO MEU CAMINHO

TINHA UM SACO DE PIPOCA

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

               Um poema meu, escrito nos anos 1980, dentro do ônibus da linha 455 – Méier - Copacabana, quando vinha à noite da Faculdade de Comunicação e Turismo Hélio Alonso, onde me formei em Jornalismo, merece uma explicação plausível.

               Trivial Simples, sem intenção alguma de ser grandioso poema, por isso tão simples quanto o almoço daquela tarde,  foi escrito após a leitura do livro “O eu profundo e os outros eus”, de Fernando Pessoa.

               Naquela noite, em que, por ordem do destino, não tinha sequer um pedaço qualquer de papel, interrompi minha viagem e saltei na Central do Brasil, afoito, na intenção de conseguir uma mísera folha de papel onde pudesse registrar a existência daquela inspiração que me incomodava deste a Praia de Botafogo.

               Encontrei um pipoqueiro que não entendeu nada quando lhe pedi um saco de pipoca vazio.

              “- Quero apenas o papel, para escrever um poema!”, lhe disse.

               Quis comprar-lhe o saco vazio, mas ele, surpreso com a maluquice, se recusou a receber o dinheiro que lhe ofereci.

               E então escrevi o poema que mostra minha dupla personalidade, meus dois eus em luta um com outro:

“TRIVIAL SIMPLES

 

‘Ser poeta não é uma ambição minha,

é a minha maneira de estar sozinho’.

 

Fernando Pessoa

 

Não gosto de mim

quando estou apaixonado.

Não gosto de mim

quando troco a poética

pela emoção.

 

Gosto de mim

quando estou único,

livre,

sóbrio,

sólido,

na solidão.

 

A grande poesia

está diante de mim

quando avisto o outro mundo.

 

Gosto de mim assim,

não como assim,

como estou agora,

preso a este eu

que não vai embora”.

 

               Quanto ao saco de pipoca, não sei onde ele foi parar. A minha sorte foi que passei o poema a limpo num caderno de anotações.

               Ana Cristina César escreveu, certa vez, que todos os poetas desejam ser Fernando Pessoa. Não é o meu caso. Desejo apenas ser inspirado, e sempre, por este múltiplo poeta, tão lido e traduzido neste “mundo, mundo, vasto mundo”. Quero apenas a poesia universal. E continuar sempre perplexo diante dos meus próprios poemas. Como este, que julgo ser uma “autopsicografia”, inspirado que foi por este poeta, que vira a alma pelo avesso para entender a si próprio. Sou também  um fingidor.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O PROFESSOR E O POETA

SIMBOLISMO E PARNASIANISMO

O PROFESSOR E O POETA II