AMAR É ...

 

AMAR É...

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

                Também fui poeta um dia. E, quando fui um sonhador, embriagado da poesia modernista de Fernando Pessoa e de Drummond, escrevi isto:

 

“Quero encontrar um amor

que me faça esquecer

o compromisso com a morte.

Porque amar é vida,

porque amar é alongar os dias,

é superar a morte,

é atrasar o compromisso com a morte,

é enganar a morte.”

 

                 Estranho isto. Até parece que o espírito de Camões, com suas anáforas, andou a me trazer inspiração. Joguei o restante fora. Fiz como manda João Cabral de Mello Neto. O resto era enfadonho, redundante demais. Guardei apenas estes versos, este miolo. Talvez um dia eu os reescreva. Ou simplesmente acrescente mais coisas – no início ou no fim.

                 Mas – confesso - estou pensando seriamente na vida que o amor nos dá; neste “fogo que arde sem se ver”, que nos inflama, nos infla e nos faz esquecer do término da vida.

                 Camões, “Pai da língua portuguesa”, pai de todos nós, poetas e lusófonos, sonetista rigorosamente no metro e na rima, caçoaria de meu verso modernista.

                  Abandonei, então, a poesia. Segui os caminhos trilhados pelo Machado de Assis cronista, por Nelson Rodrigues, por Nestor Tangerini, por Maurício Marzullo, por Rubem Braga, por Fernando Brant, por Affonso Romano de Sant´Anna, por Marina Colasanti, entre tantos outros que admiro – alguns, famosos; outros, nem tanto; outros, não.

                  Longe de mim querer superar essas feras. Estou aprendendo a escrever crônicas todos os dias para algumas revistas e alguns jornais e isto tornou-se uma prática prazerosa. Os fatos acontecem diante de nossos olhos – na rua, no ônibus, na escola, em casa. Fatos nos chegam através da televisão, do rádio, do jornal, da revista, da internet. As palavras aparecem, nos instigam: é o milagre da multiplicação das palavras.

                  Mas eu falava do amor, da vida e da morte. E acabei falando da feitura da crônica. E acabei escrevendo uma metacrônica.

                  Andei pensando numa poesia, Trivial Simples, que escrevi, após ler O eu profundo e os outros eus, de Fernando Pessoa:

 

Não gosto de mim

quando estou apaixonado.

 

Não gosto de mim

quando troco a poética

pela emoção.

 

Gosto de mim

quando estou único

livre

sóbrio

sólido

na solidão

 

A poesia está diante de mim

quando, pela minha lente,

avisto o outro mundo.

 

Gosto de mim assim,

não como assim,

como estou agora:

preso a este eu

que não vai embora.

 

                 Intrigava-me o verso de Pessoa: “... ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho”. E daí escrevi Trivial Simples, dentro de um ônibus em movimento. Porque eu amo a solidão, ao mesmo tempo. Mas “o poeta é um fingidor”. Eu posso fingir que quero a solidão, posso fingir que quero estar “livre como um pássaro”, porque posso fingir que posso vencer a morte com um grande amor. Porque, na verdade, quero vencer a morte – com as palavras – com amor universal.

                 Camões, Pessoa, Machado, Braga, Tangerini venceram a morte. Venceram porque as poesias e as crônicas escritas lhes deram vida eterna. Simplesmente amaram o que fizeram. Camões amou Natércia e a pátria portuguesa; Machado, Carolina; Pessoa, Ophelia; Tangerini, Dinah.

                 A “Paixão medida” é salutar. Amar é alongar os dias, é tornar os dias mais claros, mais azuis, mais mar. “Amar se aprende amando”, diria o gauche  itabirano Carlos Drummond de Andrade.

 

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