CLARO ENIGMA
ESCRITOR: UM
CLARO ENIGMA
Nelson
Marzullo Tangerini
Andar pelas ruas do Rio é um dos meus
hobbies favoritos. Não gosto de jogar cartas, dama, xadrez ou dominó. Não quero
terminar minha vida jogando cartas na praça – o que acho, perdoem-me, uma coisa
muito sem graça, monótona. Gosto de caminhar e observar casas antigas ou casas
suburbanas [como aquelas que aparecem na canção Gente Humilde, de Garoto,
Vinícius de Moraes e Chico Buarque] e conversar com pessoas comuns, que, com
sua maneira singular, me contam “causos” ou me explicam como deviam se
comportar os nossos políticos.
Muitas vezes saí de casa e fui andar
distraidamente pelas ruas de Bonsucesso, de Olaria, da Penha, de São Cristóvão,
de Benfica, de Botafogo.
Gosto de ir à CADEG, ao Observatório
Nacional, à Feira Nordestina de São Cristóvão.
Certa vez, andei pela Gamboa e passei
na porta do Cemitério dos Ingleses, para sentir de perto o conto Noite de
Almirante, do Bruxo do Cosme Velho. Outra vez, antes de um enterro, caminhei
pelo Caju até a Ponta do Caju para admirar a Baía de Guanabara.
Joaquim Maria Machado de Assis talvez
tivesse este mesmo temperamento. Em crônica publicada em A Semana, no dia 27 de
abril de 1888, escrevia o mestre: “De mim confesso que, na rua, ando sempre
distraído. Às vezes é uma ideia, às vezes é uma tolice, às vezes é o próprio
tolo que me distrai”.
Caminhar pelas ruas do Rio tornou-se
uma temeridade. Diz o povo que “saímos de casa e não sabemos se voltamos”, uma
vez que estamos expostos a balas perdidas entre polícia e bandidos.
Já colhi “causos” interessantes que
trouxe para minhas crônicas. Alguns ainda não foram transformados em textos
literários, por não casarem com o que estou escrevendo no momento. Mas virão à
tona, quando o texto exigir.
Mas por que escrevo sobre este
assunto? Porque um jornalista me perguntou, certa vez, como era o meu processo
criativo e o que me levou a escrever poesia, conto ou crônica. Sempre nos
perguntam essas coisas e eu nunca sei responder. Acho que muitos escritores não
gostam de responder a este tipo de pergunta, que já está desgastada.
Alguém explica essa inquietação que
vive dentro de nós? O artista vê o mundo a sua maneira. Ele tenta entender este
mundo em que vivemos. Tenta entender seu semelhante. Fazem arte porque, como
dizia Ferreira Gullar, “Viver apenas não basta”. Nascer, crescer, reproduzir e
morrer já não nos interessa. Queremos ir além disso, porque temos dúvidas. E
talvez queiramos vencer a morte.
A pista pode estar no meu livro Nós
Desatados, onde publiquei uma frase do escritor estadunidense Scott Fitzgerald:
“Você não escreve porque quer dizer algo, você escreve porque tem algo a
dizer”. Sempre temos algo a dizer. Todos nós temos algo a dizer. Uns escrevem;
outros pintam, esculpem, escrevem canções ou fotografam. Outros simplesmente
veem o mundo e se calam, se conformam com o que veem ou deixam a revolta cair
pesada no estômago.
Confesso que não sei explicar o que o
jornalista me perguntou. E nem sei por que escrevo. Acho que Clarice também não
saberia se explicar. Ainda assim, deixou pistas enigmáticas sobre seu ser e
sobre seu processo criativo. Mas como explicar o inexplicável?
Voltando ao assunto do início da
crônica: Andando, um dia, pela Rua Fonseca Telles, em São Cristóvão, parei,
perto de uma padaria do bairro, para brincar com uma totó que se parecia muito
com a minha querida Athina - que já fez a sua passagem. O dono da totó me
observava atento e, de uma hora para outra, me perguntou se eu era escritor.
Fiquei um tanto surpreso – e assustado - com a pergunta e disse que sim – podia
ter dito que não -, mas perguntei-lhe por que achava que eu era um escritor. E
ele logo me respondeu: “- Porque o senhor tem jeito de escritor”. Enfim, mais
uma pérola encontrada na rua.
Outra vez, em Congonhas, Minas
Gerais, um cidadão, na sala do hotel, me perguntou se eu era cantor.
Simplesmente, porque estava usando um chapéu preto a la Valdik Soriano. Usei
este chapéu, certa vez, num aniversário de minha mãe e minha prima Dora Santoro
me achou com cara de gangster.
O que leva uma pessoa a crer que o
outro é escritor? O jeito maluco, talvez. Só um maluco anda pelas ruas
violentas do Rio coletando fragmentos de discursos para pôr em sua próxima
crônica, em seu próximo conto, em seu próximo romance. Ladrão de frases
alheias.
E por que escrevo? Para entender a
mim mesmo, para entender o outro, para entender o mundo naquele momento.
Fazemos um retrato histórico de nosso tempo para que o texto seja estudado em
outro tempo.
Mas já não podemos mais andar pelas
ruas como se fôssemos um agente secreto bisbilhotando a vida dos outros. O
escritor tem seu jeito de ser e a literatura está estampada em seu rosto.
Talvez eu tenha respondido agora ao
jornalista como é o meu processo criativo, por que me sinto um escritor. Porque
quero, simplesmente, andar pelas ruas e escrever com liberdade, sem pensar em
fórmulas ou como devo escrever um texto.
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