FRANCISCO OTAVIANO E JORGE LUÍS BORGES

 

UM GESTO BORGIANO

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

          Como de costume, fui, um dia desses, até a minha biblioteca e resolvi a la Borges, tocar em alguns livros antigos que me olhavam saudosamente da estante.

           Lá estava a Antologia Escolar Brasileira, de Literatura, livro publicado pelo MEC no final dos pesados  anos 1960 e que por mim foi usada no antigo ginásio.

          Folheei o velho amigo e lá encontrei o poema Ilusões da Vida, de Francisco Otaviano de Almeida Rosa, advogado, jornalista, diplomata, político e poeta romântico de pouca militância literária.

 

“Quem passou pela vida em brancas nuvens,

e em plácido repouso adormeceu,

quem não sentiu o frio da desgraça,

quem passou pela vida e não sofreu;

foi espectro de homem, não foi homem,

só passou pela vida, não viveu”.

 

          O poema acima era um dos textos preferidos de Dinah Marzullo, minha saudosa mãe, que, volta e meia, o recitava para mim.

          Assim eram a minha infância e minha adolescência, ouvindo minha mãe cantar ou recitar

Poesias – na maioria, de meu saudoso pai, Nestor Tangerini.

          Quando não era Dinah, era minha querida avó, Antônia Marzullo, atriz, recitando A Flor do Maracujá, poesia do poeta romântico fluminense Fagundes Varela, lembrança que ficará especialmente para uma crônica futura.

          Quantas crianças passam a infância ao lado de sua mãe, envoltas em belas músicas e poesias. Quantas perdem suas mães e não podem desfrutar do carinho materno.

          Além deste poema de Francisco Otaviano, Dinah declamava Minha Mãe,  poema de Casimiro de Abreu, outro poeta romântico fluminense.

          A poesia entrou na minha alma assim, pois,  além de recitais de poesia de minha mãe, tinha a meu lado, também, a presença de dois poetas: meu pai e meu tio, Maurício Marzullo, um eterno apaixonado pela sua Antonietta -  Tia Netinha, para nós-.  a quem dedicou inúmeros sonetos e trovas.

          Tio amoroso, Maurício dedicou, também, inúmeros poemas e sonetos a seus filhos, sobrinhos, netos e bisnetos.

          Sobre Francisco Otaviano, antes que dele me esqueça, nasceu na cidade do Rio de Janeiro a 26 de junho de 1825, onde faleceu, a 28 de junho de 1889.

          O gesto de Jorge Luís Borges, já cego, tocando com suas velhas mãos os livros de sua vasta biblioteca, me fez  lembrar do escritor argentino, além de reforçar  a minha  paixão pela literatura. Os livros na estante nos convidam a uma viagem no tempo e a terras distantes. Ao contrário de Borges, posso ainda ver os textos escritos em suas páginas. Ali mergulho, reforçando, também, a crença de que são companheiros essenciais para a iluminação de toda a humanidade.

   

         

 

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