JAMES BROWN
UM E-MAIL DE
JAMES BROWN
Nelson Marzullo Tangerini
No dia 7 de janeiro de 2009, resolvi
dar um bordejo pela cidade do Rio de Janeiro – ver as meninas e as vitrinas -
para oxigenar o cérebro. A vida de cronista, juro, às vezes me cansa.
Ao chegar a casa, como de
costume, fui direto para o computador para averiguar quantos e-mails havia
recebido de amigos e do Nirton, meu irmão mais velho, que, volta e meia, me
envia umas piadas daquelas - muito engraçadas.
E eis que me deparo com um e-mail
de um tal Mr. James Brown.
Meditabundo, pensei:
Recebi um e-mail do Father
of the soul. Que legal! O cara lembrou-se de mim!
Naquele momento, lembrei-me
dos bailes soul no clube suburbano e dos tempos em que a música era feita com
garganta, cordas vocais, guitarras, baixo, piano, bateria e o artista tinha de
cantar e tocar para a platéia. Bons tempos!
Algumas pessoas não
entendem por que não gosto dessa música [é música?] feita com computadores,
letras nada poéticas, agressões à língua, palavrões e insultos às mulheres.
Acho, porém, que algumas gostam de ser chamadas de cachorras ou potrancas,
porque estão lá, cantando e dançando nos bailes funk. Mas até quando?
James Brown! Inquieto,
elétrico, teatral, O Pai do Soul eletrizava o público com Like a sex machine e
outros sucessos.
No filme Blues Brothers,
que aqui recebeu o nome de Os irmãos cara de pau, Mr. Brown contracenava com
Ray Charles e John Belushi e cantava gospel e blues. Aliás, vi-o num outro
filme [não me lembro o nome], cantando um belo blues.
Apaixonado pelo blues de
B. B. King, Robert Johnson, Albert King, John Lee Hooker, Ray Charles, Mary Lou
Willians e do branquelo Eric Clapton, escrevi a canção Energia Azul. Composta
de parceria com o velho amigo Adalberto Barboza, meu blues foi gravado pela
banda Suburblues, liderada pelo meu amigo Maurício Silveira [foto], cantor,
guitarrista e compositor, outro amante do som dos negros do Mississipi.
Influenciado por James
Brown, também compus, de parceria com Adalberto Barboza e Osvaldo Martins [já
falecido] um soul intitulado Blitz de janeiro. Jamais gravada, nossa canção, um
trocadilho, versa sobre o preconceito contra o negro em nossa cidade:
“Carnaval, ´tá chegando / E os ôme, arrochando / Blitz de janeiro / Blitz de
Janeiro / Lá morro do Salgueiro / Tem batida o ano inteiro / Blitz de Janeiro /
Blitz de janeiro / Lá nos bailes, do subúrbio / Dança sempre / Quem é escuro /
Blitz de Janeiro / Blitz de janeiro”.
Viajei no tempo...
Não abri o e-mail. Mr James
Joseph Brown, nascido a 3 de maio de 1933, em Barnwell, South Carolina,
desencarnou no dia 25 de dezembro [Natal], em Atlanta, Geórgia, EUA, e eu
fiquei com medo de clicar no anexo, que poderia conter um convite para seu novo
show no além. Foi um grande artista - embora gostasse de dar porrada em algumas
mulheres que não se comportavam como sex machines -, mas não estava disposto a
assistir a uma apresentação sua, no momento. Pretendo ficar por aqui mais uns
30 anos – enchendo o saco dos meus alunos, dos meus inimigos e dos meus
leitores.
Na verdade, meu caro leitor, livrei-me de
abrir um spam e pegar um baita vírus. Esta praga tem danificado diversos
instrumentos de trabalho em todo o mundo e os arautos da tecnologia têm de
inventar um meio de detoná-lo antes que cheguem às nossas caixas..
Este, pelo menos, serviu
para eu escrever esta divertida crônica.
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