MÉIER
ARRUMANDO A
CASA
Nelson
Marzullo Tangerini
Arrumando a casa e fazendo uma seleção natural o que deve e o que não
deve ir para o lixo, eis que encontro um texto meu, publicado como editorial na
página 2, no jornal O Panorama, Ano II – Nº 6, Rio de Janeiro, maio/junho de
2005.
O Panorama publica, ainda, na p. 1 e na
p. 2, uma foto do coreto do Jardim do Méier, reformado, feita por mim.
Não sei
se seu idealizador, João Batista Jr., prosseguiu com o jornal, que tinha uma
proposta bastante interessante: cobrir, além do Méier, os bairros mais
próximos.
Segue,
nesta crônica, a matéria que escrevi para o referido jornal:
“MÉIER, 116
ANOS.
O QUE
COMEMORAR?
No dia 13
de maio de 1889, um ano após a Abolição da Escravatura, a história do Méier
começava.
Nesses
116 anos, o Méier cresceu e se tornou um dos grandes centros comerciais da Zona
Norte.
Como
todo grande bairro, enfrenta problemas que muitas vezes parecem não ter
solução.
Por ocasião
de seus 116º aniversário, o Norte Shopping resolveu presentear o bairro,
restaurando o Jardim do Méier, recanto mais aprazível da região, ação esta que
deveria partir do poder público.
Os
problemas existem e são muitos: ruas esburacadas, mal iluminadas, obras
intermináveis e assaltos constantes em pontos já reconhecidamente perigosos.
O
aspecto da parte lateral do Jardim do Méier, debaixo do viaduto Velinda da
Fonseca , assim como toda a região próxima ao Jardim foi completamente
abandonada. E a maior prova disso é o número de estabelecimentos comerciais,
que a todo momento fecham as portas. E os que ainda sobrevivem não se cansam de
reclamar.
O Méier,
mais do que nunca, necessita da ação das pessoas comprometidas com o bairro,
realmente preocupadas com o seu crescimento, mas, ao invés disso, entra ano e
sai ano e os problemas se repetem. Seria realmente maravilhoso comemorar o aniversário de nosso
bairro com um melhor padrão de vida, segurança
e um sistema de saúde pública que se preocupasse verdadeiramente com o
nosso bem estar”.
Muitos
artistas – brasileiros e estrangeiros - e escritores famosos passaram pelo
Méier: Fernanda Montenegro, João Nogueira, Rita Lee, Gilberto Gil, Peter Gabriel,
Brian May, Bob Dylan, Paul Simon, Flávio Venturini, Erasmo Carlos, entre
outros. Seus nomes estão registrados na parede, do lado esquerdo, na entrada do
Imperator, que, inclusive, quase foi comprado por um endinheirado pastor
evangélico. Isto não aconteceu porque moradores do bairro e localidades
vizinhas participaram de um abaixo assinado pedindo que, ali, permanecesse uma
casa de espetáculo. Enfim, o antigo cinema Imperator, frequentado pelo tijucano
Erasmo Carlos, voltou a funcionar como palco de grandes estrelas.
É
possível, também, que o poeta Carlos Drummond de Andrade, tenha passado pelo
bairro, a quem dedicou o singelo poema INDECISÃO DO MÉIER, publicado no livro
“Nova Reunião: 23 livros de poesia – volume 1”, Rio de Janeiro, Editora
Bestbolso, 2010, 3ª edição:
“Teus seus dois cinemas, um ao pé do outro, porque não se
afastam / para não criar, todas as noites, o problema da opção / e evitar a
humilde perplexidade dos moradores? / Ambos com a melhor artista e a bilheteria
mais bela, / que tortura lançam no Méier!”
A atriz de
teatro e cinema Antônia Marzullo, minha avó, contava que foi assistir, num
cinema do Méier, creio que o Paratodos, ao filme “As aventuras de Chico
Valente”, do cineasta Ronaldo Lupo, quando foi surpreendida pelo dono do
cinema, que a reconheceu de imediato. Assim sendo, a atriz, que trabalhou no
filme, foi impedida por este senhor de comprar dois bilhetes – para ela e seu
marido, José Pinto da Costa, que acabaram assistindo ao filme de graça.
No
Colégio Educo, na Rua Dias da Cruz, fui aluno do divertido professor de inglês
José Trotta Paranhos, escritor e leitor de Edgar Allan Poe e Conan Doyle.
Fiquei muito triste, quando soube de sua morte. Paranhos escreveu inúmeros contos de terror em que o
Méier é o espaço da narrativa.
Onde
foram parar esses contos?
Para
sempre, o Méier foi eternizado nas crônicas de Lima Barreto, que morava de
Todos os Santos, um bairro vizinho.
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