OS "PARISIENSES" E O MAR II
OS
“PARISIENSES” E O MAR II
Nelson
Marzullo Tangerini
Prosseguindo em nossos
“descobrimentos”, neste vasto oceano das letras, negaremos um pouco mais
com a publicação de sonetos de mais dois “parisienses” que escreveram sobre o
mar.
Leiamos o soneto “Espumas”, de
Augusto Mouzinho, com suas marítimas aliterações:
“Sinto no
peito o regougar dos mares...
O imenso
arqueio das ondas formidandas,
Como se
fossem glaucas velas pandas
Que,
lúbricas, se alterassem pelos ares...
Sinto no
peito os vagalhões aos pares,
Entre
cadências, compassadas, brandas,
Num ribombo
brutal sobre as varandas
Da
minha´alma de dores seculares.
Sinto no
peito, após, uma por uma,
Vastas
esteiras – rastros longos, brancos...
Redes
abertas – esteirais de espuma...
É assim o
amor! Um mar sobre a amurada
De noss´alma
entre abalos e entre arrancos:
Vagas...
espumas... e, depois... mais nada!”
De Sylvio Figueiredo trazemos “Nos
dias de verão”, que nos faz lembrar do poema “Adormecida”, de Castro Alves, e
“O arrastão”, que fala sobre o tranquilo bairro de Jurububa, ainda hoje uma
vila de pescadores. O lugar é também caminho para o Forte de Santa Cruz, que
tem ampla vista para o mar.
“NOS DIAS DE
VERÃO
Nos dias de
verão vestes fina roupagem
Toda feita
de renda e feita de cambraia
E sob o
varandim, buscando ansiosa a aragem,
Ficas a ver
o sol que, flamíneo, desmaia.
Num lânguido
torpor fitas a branca praia
E o amplo
Mar, de uma vela a refletir a imagem;
E sonhas,
silenciosa, e uma flor que caia
Jamais te
arrancará dessa linda miragem.
Adormeces,
tranquila, a fronte sob um braço
E um sorriso
fugaz, que não há quem compreenda,
Brinca sobre
o teu lábio, em que impera o cansaço.
Dormitas,
afinal, sob a formosa tenda;
E por causa,
talvez, do incômodo mormaço,
Vejo o teu
seio arfar sob a espuma da renda!”
&
“O ARRASTÃO
Em Jurububa,
ao poente. O pescador sem ruído,
Das muralhas
negras e fatais estende a meia
Circunferência
que pouco a pouco cerceia
O espaço e
traz à terra o pescado aturdido.
Gaivotas
grasnam no alto, a prelibar a ceia.
O mar golfa
na praia e espuma, com um grande gemido,
Como um
velho cavalo exausto e combalido
Que visse se
atirar para morrer, na areia.
E enquanto à
superfície acendem-se áureos lumes
Como esteira
sem fim de dourados cardumes,
Inquieta e
coruscante – obra pura do sol –
Do fundo o
pescador suas redes arrebata
Peixes
argênteos, toda a submergida prata,
Toda a carga
talvez de um galeão espanhol”.
Sobre Augusto Mouzinho, sabemos
apenas que, segundo Lourenço de Araújo, frequentador do Café Paris, o poeta
fazia parte da Roda Literária “parisiense”. Era de Niterói, onde viveu e veio a
falecer.
Sylvio Figueiredo, jornalista,
tradutor e poeta, nasceu a 19 de março de 1891, em Niterói, onde veio a
falecer, a 24 de novembro de 1972.
Em 1913, Figueiredo “escreveu um
precioso livro de parceria com o célebre ‘parisiense’ Luiz Leitão. Trata-se de
Sonetos, publicado pela Livraria Editora Jacintho Silva, do Rio de Janeiro. O
livro é composto de 40 sonetos, sendo 20 de autoria de Figueiredo e os outros
20, de Leitão. Foram utilizados versos decassílabos e alexandrinos, de temática
ora líricas, ora satíricas”.
Publicou ainda “Contos que a
vida escreve” (1931), “Quixote” (Sátira, 1934), “Atlantes” (Versos, 1943),
Sonetos (Separata da Revista da Academia Fluminense de Letras, 1954), “Forja”
(Versos, 1962), e “Passos na areia” (Crônicas, 1962).
Trabalhou, também, na extinta
revista O Cruzeiro, onde publicou crônicas e contos.
Sobre esta crônica, recorri às
informações contidas no livro “Os poetas satíricos do Café Paris, Coleção
Introdução aos clássicos fluminenses”, Organização e apresentação de Luiz
Antonio Barros, publicado pela Editora Nitpress, Niterói, RJ, 2014.
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