POETA JOSÉ MARIA RAMALHO
TENHO UM PRIMO POETA
Nelson Marzullo Tangerini
Tenho um primo poeta e compositor. Ele
se chama José Maria Ramalho. É autor do livro “Cacos de vida”. Pelo nome de sua
obra, uma frase de “Certas canções”, nota-se que é fã de Milton Nascimento e do
Clube da Esquina. Ramalho nasceu em Nova Iguaçu, mas mora em Paracambi, no
interior do Estado do Rio de Janeiro.
Por causa de problemas
familiares, durante 40 anos, o poeta fluminense – duplo sentido, porque ele
torce pelo Fluminense - e eu estivemos distantes, um do outro.
Seu pai, João Baptista
Ramalho, meu tio, era irmão de Dinah Marzullo Tangerini, minha mãe, por parte
de pai. Somos netos do mesmo avô, o italiano Emílio Marzullo, que ao todo, teve
sete filhos: Maurício, Dinah e Dinorah (com Antônia) e Maria de Lourdes, João,
Iracema e Lúmen (com Nair Ramalho). Na época em que “Os Ramalhos” nasceram,
havia uma lei, assinada por algum idiota de plantão, que proibia que os filhos
“ilegístimos”, fora do casamento, recebessem o nome do pai – ou da mãe.
Para mim, todos os filhos do
Emílio Marzullo, “O Poeta da Praça Onze”, são legítimos.
Fui, então, aos 41 anos,
procurar meus parentes espalhados em Queimados, Paracambi, Japeri e
Mangaratiba.
Nesta ocasião, meu tio João
havia caído doente, em virtude de uma grande depressão. Visitei-o várias vezes
no Hospital de Paracambi, onde esteve internado. Preocupava-me deveras o seu
estado de saúde. Tão longo recuperou-se, o rebelde paciente escreveu-me uma
belíssima carta:
“Paracambi,
22 de dezembro de 1977
Ao chegar esta carta,
espero que todos estejam com saúde e muita paz.
Olha, foi um prazer ter
te conhecido. Tu és o sobrinho mais lindo que existe. Obrigado por tudo o que
fizeste por mim. Estou muito feliz.
Como vai minha irmã?
Diz-lhe que estou com saúde. Um dia, pretendo vê-la para matar a saudade que
tanto me incomoda.
Eu e Nair e os meus filhos desejamos
um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo, repleto de felicidade para ti e tua
família.
Obrigado pelo cartão.
Um abraço de teu tio João, que gosta muito
de ti”.
O silêncio e o preconceito de
minha família, enfim, mantiveram-me afastado de meus tios e primos. Lourdes,
porém, sempre nos visitava e me dava notícia dos Ramalho. Era um desejo antigo
conhece-los. Minha mãe falava-me que
tinha mais irmãos. Contava-me as histórias de seu pai. Conversei, então, com
Lourdes e pedi-lhe que me levasse até meus parentes. O que ela fez tão logo
pôde. O primeiro a me procurar foi Lúmen, que me telefonou.
Quarenta anos jogados fora,
perdidos, quarenta anos que voaram e que não voltam mais. Podíamos ter
convivido mais com essa gente humilde e honesta que tem o mesmo sangue –
Marzullo.
Resta-me, agora, viver a
poesia dos próximos quarenta anos, multiplicar esses quarenta por dois, correr
contra o tempo. Porque a vida é breve e os preconceitos só entrevam a alma
humana, impedindo-a de evoluir intelectual e espiritualmente.
Tenho um primo poeta. Ele me
enviou, em 6.2.2008, um poema seu - curto, leve, mostrando-me que deseja voar a
outros mundos, outros horizontes, outras terras – mais férteis de poesia, amor
e amizade:
“SONHO ALADO
O sonho é doce,
é liberdade de ser.
Tem asas que voam,
asas que voam distante.
Sonho,
viajo pro céu.
Faço amor com a lua,
cavalgo estrela cadente.”
A poesia e o sangue
Marzullo foram os únicos bens que o paupérrimo Emílio nos deixou. São estas
pontes que unem os hoje amigos e primos José Maria Ramalho e Nelson Marzullo
Tangerini.
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