POETA RENÊ MEDEIROS E O CAFÉ PARIS
O PARAIBANO DO PARIS
Nelson Marzullo Tangerini
No final de 2009, ano em
que a Editora Nitpress relançava o livro Vida Apertada [de 1926], de Luiz
Antônio Gondim Leitão, um dos maiores sonetistas satíricos da língua
portuguesa, descubro em meu blog um recado de Rejane Medeiros, filha de René
Descartes de Medeiros, um dos poetas da Roda do Café Paris, aquele movimento
literário que marcou a história de Niterói, em capital fluminense, nos anos XX
do século passado.
Rejane e eu passamos a
trocar figurinhas poéticas, falando da velha Niterói e seus poetas parisienses.
Ela, entusiasmada, falava de seu querido pai e de sua mãe, também paraibana,
admiradora da obra literária do marido.
Membro da roda literária do
Café Paris, René, um homem fino, sedutor, o galã da Roda, era funcionário da
Receita Federal, Ministério da Fazenda, e deixou dois livros publicados: Oração
aos seios e Caminhada. E um outro
inédito, manuscrito.
Naqueles anos XX, René
escreve para o amigo Tangerini o soneto Natureza. E Tangerini, mais tarde,
escreve ao amigo o soneto René Descartes de Medeiros, mostrando que o paraibano
traçava todas, “desde a mais bela dama futurista ao mais esquisito sacatrapo”.
Após a morte de René, aparece em casa de
D. Maria de Lourdes Almeida de Medeiros, viúva do poeta, um médico de Niterói
que se dizia “parisiense” e amigo de seu marido.
Inocente, e fragilizada, D.
Lourdes deixa que ele levasse o livro inédito, com sonetos manuscritos de
Medeiros. Esse médico, que, segundo ela, se chama Sílvio, promete devolver-lhe
logo os originais, mas jamais voltou à sua casa para devolver esta obra rara e
valiosa para a família e para a história literária de Niterói.
Filha única de Medeiros e de
D. Lourdes, Rejane ainda sonha com a devolução dos sonetos do saudoso pai. E me
pergunta se tenho em meu arquivo o soneto alexandrino Harmonia Bárbara. Digo
que tenho, ela fica encantada e me pede que eu lha envie por e-mail uma cópia
do texto
Ei-lo:
“No lírico gingar dos mastros
e das quilhas,
uma nova harmonia espirala-se
no ar...
São notas de volúpia e de
amargura, filhas
do vai-vem voluptuoso e
irrequieto do mar!
Se a caravela rompe a
distância das milhas,
agitada é a canção,
wagneriana, solar;
mas, se está presa a um cais,
por cabos, por presilhas,
estrangula a canção de
gemidos sem par!...
São notas desiguais, músicas
divergentes,
tendo origem na dor de duas
almas doentes,
que eu, sentindo, comparo a
humanas maravilhas...
Wagner, pelo alto mar, no
horror dos temporais,
e o doentio Chopin, na murada
de um cais
- no lírico gingar dos
mastros e das quilhas!...
René Descartes de Medeiros,
um dos grandes sonetistas do Café Paris, ao lado de Nestor Tangerini, Brasil
dos Reis e Luiz Leitão, nasceu em Areia, Paraíba, em 2 de março de 1900, e
faleceu no Rio de Janeiro em 1 de dezembro de 1957.
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