POETAS LUÍS DE CAMÕES E EMÍDIO SANTANA
LUÍS
DE CAMÕES E EMÍDIO SANTANA
Nelson
Marzullo Tangerini
Há
que se fazer uma tese sobre necrológicos na literatura, como a que se inicia,
em língua portuguesa, em pleno Classicismo, com o poeta português Luís Vaz de
Camões, o primeiro formador da língua portuguesa.
Assim o autor de “Os Lusíadas” (obra épica,
história dos feitos heroicos dos portugueses), Sonetos (lírica), entre outros
poemas, saudoso de sua companheira chinesa Dinamene, morta num naufrágio,
quando o casal seguia para a Índia, de onde partiriam para Portugal, com a
intenção de lá viverem juntos, lamentou a partida da jovem amada, através de um
Réquiem por Natércia:
“Alma
minha gentil, que te partiste
Tão
cedo desta vida descontente,
Repousa
lá no céu eternamente,
E
viva eu cá na terra sempre triste.
Se
lá assento etéreo, onde subiste,
Memória
desta vida se consente,
Não
te esqueças daquele amor ardente
Que
já nos olhos meus tão puro viste.
E
se vires que pode merecer-te
Alguma
cousa a dor que me ficou
Da
mágoa, sem remédio, de perder-te;
Roga
a deus que teus anos encurtou,
Que
tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão
cedo de meus olhos te levou”.
Declaradamente antifascista, o poeta e
anarquista Emídio Santana, uma das vítimas
da ditadura salazarista, escreveu, de
forma hilariante, uma bela paródia satírica sobre a partida do ditador António
de Oliveira Salazar.
Seu soneto, publicado no jornal anarquista
A Batalha, Lisboa, Portugal, julho / agosto / setembro de 1986, retrata muito
bem a agonia de todo o povo português, vítima de uma ditadura sanguinária e
trevosa.
Eis a paródia:
“NEM
A MORTE O REDIMIU
Requiem por
Salazar
[Inspirado no conhecido
soneto
de Camões de requiém pela Natércia.]
Alma
mesquinha que enfim partiste,
(
- tão tarde!!! – diz o povo descontende)
Que
vivas lá no inferno, eternamente,
Que
ninguém por certo ficará triste.
E
se lá no inferno onde caíste
Memória
deste mundo se consente,
Que
não esqueças esta lusa gente
A
quem tão maus tratos infligiste.
E
se vires se te é dado compensar
De
algum modo a dor que nos deixaste
Destes
quarenta anos de penar,
Roga
a Deus, que a teu modo acreditaste,
Que
bem cedo te mande acompanhar
Pela
corja sinistra que criaste!”
Um dos mais importantes militantes portugueses
do anarcossidicalismo nos anos 1920, Emídio Santana nasceu em Lisboa, Portugal a
4 de Julho de 1906, e faleceu, na mesma cidade, a 16 de outubro de 1988.
Durante a clandestinidade, o
pós-25 de Abril e nos anos seguintes, foi
um incansável homem de lutas, sendo também autor de diversos artigos e
ensaios sobre o assunto e sobre o mutualismo, na imprensa libertária.
Seus livros Prefácio e anotações
a Sousa, Manuel Joaquim de. “O sindicalismo em Portugal”, Porto, Afrontamento, 1974, “História de um
atentado: o atentado a Salazar” (quase manda o ditador pelos ares), Mem
Martins, Forum, 1976, “Memórias de um militante anarco-sindicalista : tempos de
luta de adversidade e de esperança”, Perspectivas & Realidades, Lisboa, 1987, e
“Onde o homem acaba e a maldição começa, crónicas do mundo dos ex-homens”, Assírio e
Alvim, Lisboa, 1989.
Em 2002, quando estive em Portugal, acompanhando
o escritor e pesquisador Edgar Rodrigues, conheci o anarquista Abílio
Gonçalves, uma das vítimas dessa ditadura desumana de Salazar. Já idoso, Abílio
contou-me seu martírio numa prisão no Tarrafal, em Cabo Verde.
Muitos outros portugueses
estiveram presos ou exilados em outras colônias portuguesas, como Angola,
Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Muitos jamais voltaram.
Morreram no exílio, longe de suas famílias e de seus amigos de luta contra o
fascismo. Outros tantos casaram-se com mulheres nativas.
Depois de perder o pai, o operário anarquista
Francisco Correia, assassinado pela ditadura, na cidade do Porto, Edgar
Rodrigues (nome literário de António Francisco Correia) arrumou seus poucos pertences
e viajou para o Brasil, até então o único país independente de Portugal. A língua
portuguesa uniu esses antifascistas, embora vivessem sempre assustados, quando
autoridades portuguesas, acompanhadas de agentes da PIDE, o SNI português, circulavam pela cidade à procura de
anarquistas ou comunistas.
Era
natural o ódio de Emídio Santana, que acompanhou, em luta, a queda de muitos companheiros,
muitos deles torturados até a morte. Habilidoso, o poeta nos presenteou com
este belo soneto paródia. Porque, como
dizia Sócrates, filósofo grego, “todos nós estamos condenados à morte”. Os
ditadores, tolos, também morrerão, um dia. Para alívio do sofrido povo
trabalhador, eterna vítima do autoritarismo.
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