SUBURBANOS
DOIS
ARTISTAS SUBURBANOS E OUTROS
Nelson
Marzullo Tangerini
Dois grandes escritores viveram no subúrbio do Rio de Janeiro: João
da Cruz e Sousa (*24.11.1861, Desterro,
atual Florianópolis, SC, + 19.3.1898, Sítio, atual Antônio Carlos, MG) e Afonso
Henriques de Lima Barreto (*13.5.1881, Rio de Janeiro, +1.11.1922, Rio de
Janeiro).
Embora não haja referência ao
Encantado na obra de Cruz e Sousa, o poeta comentava, com amigos, segundo Tom
Farias (Uelinton Farias Alves), sobre a feira que já existia, em sua época, na
Rua Teixeira Pinto, atual Rua Cruz e Sousa, em frente à sua porta.
A casa do poeta – conheci –
tinha em cima, de frente para a rua, uma ave - uma águia, talvez – que
carregava no bico um lampião – ou luminária -, para iluminar o jardim, quando a
luz do dia se findava. Para os amigos, dizem os pesquisadores, Cruz e Sousa dizia
ser a ave uma representação do movimento
Simbolista.
Sabe-se, ao menos, que o livro
“Últimos Sonetos”, póstumo, e publicado pelo amigo Nestor Vítor, escritor e
professor, foi totalmente escrito na casa do Encantado, demolida em 1986,
diante da falta de sensibilidade no prefeito do rio de Janeiro.
Ali, também, Cruz e Sousa, viveu
os primeiros momentos mais dramáticos de sua vida: perdeu três filhos, levados
pela tuberculose, e viu sua esposa Gavita em franco processo de
enlouquecimento.
Lima Barreto, Pré-Modernista,
retratou melhor os subúrbios da ex Capital Federal, em crônicas publicadas em
jornais diversos e, posteriormente, publicadas em livro, e no livro “Triste fim
de Policarpo Quarema”, por exemplo, onde um militar, Major Quaresma, nacionalista, acreditava cegamente na genuína arte
brasileira.
O anarquista morava na Rua Major
Mascarenhas, em Todos os Santos, onde, dizem, Monteiro Lobato , o encontrou
embriagado e estirado no chão. Decepcionado, o escritor paulista teria virado
as costas e ido embora.
Assim como a casa de Cruz e
Sousa, a casa de Lima Barreto também foi demolida, como se uma “força estranha”
quisesse apagar da história duas personalidades afrodescendentes - e a memória
do subúrbio carioca, sempre relegada a segundo plano pela imprensa do Rio.
Cruz e Sousa e o menino Lima
Barreto talvez tenham se esbarrado nas
ruas do Méier ou do Engenho de Dentro, para onde confluíam os moradores dos
bairros vizinhos ,como Todos os Santos e Encantado, que faziam suas compras
nesses dois bairros, mais movimentados e menos ermos. A idade entre eles não
era grande, uns 20 anos, e eles podiam ter trocado algumas palavras no interior
dos trens que atravessavam o subúrbio : “refúgio dos infelizes” funcionários
públicos, como escreveu Lima Barreto, certa vez, em uma de suas crônicas.
Piedade, onde aconteceu o trágico
assassinato do escritor Pré-Modernista Euclides da Cunha, registrou,
posteriormente, os primeiros passos do maestro Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana
Filho), nascido na Rua Gomes Serpa, vizinha da extinta refinaria do Açúcar
União. Mais tarde, Pixinguinha se
mudaria para Olaria, até morar definitivamente na Pavuna.
O bairro, que já se chamou
Estação das Gambás, também presenciou o
merecido sucesso do mestre Ataúlfo Alves, um dos grandes nomes da Música
Popular Brasileira. Ataúlfo, mineiro de Miraí, morou na Rua Joaquim Martins,
onde sua casa, preservada pela família, é um orgulho para a Piedade.
Esses bairros longínquos,
Piedade, Encantado, Todos os Santos, Engenho de Dentro e Méier, continuam
distantes; distantes dos holofotes da mídia, pois é mais bonitinho morar na
Zona Sul, por onde passou a linda “Garota de Ipanema (...) num doce balanço a
caminho do mar” e onde nasceu a Bossa Nova.
Felizmente, o subúrbio foi
cantado em “Gente Humilde”, música escrita por Garoto, Chico Buarque e Vinícius
de Moraes, que, talvez, numa viagem de trem, tenham visto, de longe, as
humildes casas suburbanas, voltadas para a linha férrea.
Ataúlfo deixou registrado, para
sempre, o histórico bonde São Januário, que levava mais um operário: era ele
que ia trabalhar.
Enfim, é o subúrbio quem faz o
internacional Carnaval Carioca.
A história do subúrbio do Rio de
Janeiro continua viva: com Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Carlos Dafé,
Roberto Ribeiro, Cassiano, Tim Maia... e
uma infinidade de compositores, cantores, escritores, poetas e fotógrafos:
vivos ou vivendo agora no andar de cima, de onde de soslaio, observam batuques e
violas e a continuidade da arte que
corre pelas veias abertas da Cidade Maravilhosa.
Comentários
Postar um comentário